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Unidade de tratamento do jogo recebeu caso com dívida de 3 milhões

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                    Unidade de tratamento do jogo recebeu caso com dívida de 3 milhões
Unidade de tratamento do jogo recebeu caso com dívida de 3 milhões (Foto: Reprodução)

Os dados foram revelados pela presidente do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), Joana Teixeira, em entrevista à Lusa, a propósito da abertura, em junho, da primeira unidade pública do país dedicada ao tratamento da perturbação do jogo a dinheiro.

 

Joana Teixeira contou que a "primeira preocupação" quando assumiu a presidência do ICAD, em 01 de janeiro de 2026, foi perceber quais as questões prioritárias que necessitavam de resposta e que o jogo "saltou realmente à vista", devido ao aumento acentuado da procura de tratamento para esta dependência.

Dados do ICAD mostram esta realidade: Em 2023, o instituto tinha 358 utentes a procurar tratamento por esta perturbação, número que subiu para 782 em 2025, um aumento de 118%.

"O aumento muito elevado da procura de tratamento para problemas relacionados com o jogo está a ser uma realidade muito marcada no ICAD e tínhamos ainda uma lacuna do ponto de vista de intervenção terapêutica que tivemos que resolver" com a criação desta unidade, salientou a psiquiatra.

Nos primeiros três meses de funcionamento, a unidade recebeu 50 pessoas, uma procura que surpreendeu o próprio instituto por ter ocorrido durante os meses de férias.

Dos 50 utentes, apenas seis são mulheres, com uma média etária mais elevada do que os homens. Entre os homens, a maioria tem menos de 40 anos e, destes, metade tem até 25 anos, disse, considerando "muito significativo" o número de jovens a procurar tratamento.

O ICAD está a tentar perceber as razões desta diferença na procura de tratamento. A doença é mais prevalente nos homens, mas o estigma ou outros fatores podem dificultar a procura de tratamento pelas mulheres, reconheceu.

Adiantou que os homens entre os 30 e os 40 anos são os que apresentam as situações mais problemáticas. Entre os casos acompanhados está o de uma pessoa que acumulou três milhões de euros de dívida, revelou.

"São situações muito graves a que temos de dar resposta e intervir. E estes serviços especializados permitem-nos fazer uma abordagem direcionada para os casos mais graves e que precisam de uma intervenção multidisciplinar mais intensiva do que a que existe disponível noutras unidades", salientou.

Os casos de maior gravidade financeira são encaminhados para o contabilista da equipa multidisciplinar, composta ainda por psiquiatras, psicólogos e uma assistente social, que avalia a situação e procura soluções, nomeadamente através de reestruturações de dívida.

Joana Teixeira alertou ainda que as dificuldades financeiras podem contribuir para recaídas, através da tentativa de recuperar no jogo o dinheiro perdido, criando um ciclo difícil de interromper.

Dos 50 utentes, 12 recorreram por iniciativa própria à unidade e os restantes foram referenciados por familiares, centros de tratamento do ICAD ou médicos de família.

No momento da entrevista, havia três utentes em lista de espera e o tempo médio para a primeira avaliação era de cinco dias, o que a psiquiatra considerou "um tempo muito bom".

A maioria dos utentes da unidade, que funciona em regime de ambulatório, é da região de Lisboa, mas também há pessoas de Aveiro, Castelo Branco, Guarda, Leiria, Porto, Santarém e Setúbal.

Os dados nacionais disponíveis apontam para uma prevalência estimada de dependência de jogo de 0,6% da população, enquanto no jogo problemático sobe para 1,1%.

Segundo a responsável, a utilização dos meios 'online' para jogar aumentou depois da pandemia, num contexto em que as plataformas estão disponíveis 24 horas por dia.

A intervenção atualmente disponibilizada pela unidade de Lisboa destina-se ao jogo a dinheiro. O programa de intervenção na utilização problemática de videojogos, dirigido a partir dos 12 anos, funciona atualmente no Porto.

O ICAD pretende abrir também em Lisboa um programa para a utilização problemática de videojogos e levar a intervenção especializada para o jogo a dinheiro para o Norte do país, disse, referindo que estão já a ser desenvolvidos trabalhos nesse sentido.

Questionada sobre a exposição à publicidade ao jogo, incluindo na televisão e nas redes sociais, defendeu que a questão deve ser analisada numa perspetiva interministerial.

A responsável defendeu também a necessidade de combater o jogo ilegal.

"Temos que atuar nestas duas frentes", afirmou, defendendo que é preciso desenvolver uma resposta eficaz para a problemática.

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