Rui Pinto poderá ajudar autoridades britânicas em troca de proteção
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O pirata informático Rui Pinto, que levou à deteção de irregularidades financeiras cometidas pelo Manchester City na Liga Inglesa, ter-se-á mostrado disponível para ajudar as autoridades britânicas no processo judicial contra o clube, em troca de proteção policial.
A notícia foi avançada pelo The Guardian, este sábado, depois de o português ter lançado uma campanha de angariação de fundos para se mudar para "um local não divulgado", como consequência da decisão de encerramento do Programa Especial de Segurança de que beneficiava como testemunha.
O Manchester City foi considerado culpado de mais de 100 acusações por uma comissão independente, que descobriu contratos que visavam aumentar artificialmente as receitas do clube em 900 milhões de libras (cerca de 1.058.580.000 euros). Na sexta-feira, o clube anunciou que recorrerá da decisão, mas a eventual cooperação do hacker poderá levar as autoridades britânicas a alargar a investigação.
Se Rui Pinto deixar efetivamente de ser protegido pelo Estado português, ficará livre para cooperar com as autoridades de outros países a partir de 10 de outubro. O hacker tem ajudado esporadicamente as autoridades francesas, alemãs e belgas, podendo vir a adicionar a polícia britânica à lista.
Entretanto, a ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, disse que está a analisar a decisão, prometendo uma resposta até ao dia 10.
"Estou a receber os vários pedidos. Estão a chegar agora ao meu gabinete. Estamos a analisar com todo o cuidado. Se tiver havido alguma irregularidade, ou se tiver havido algum procedimento que não tivesse sido mais correto, naturalmente que será ponderado", disse, este sábado.
De notar que, de acordo com o despacho da Comissão de Programas Especiais de Segurança tornado público na sexta-feira, "foi determinado o encerramento do Programa Especial de Segurança do qual era beneficiário a testemunha protegida Rui Pedro Gonçalves Pinto, com efeito a 10 de outubro de 2026", após reuniões em 8 de junho e 9 de julho de 2026.
A decisão foi fundamentada "na falta de compromisso da testemunha no cumprimento do programa em que se encontrava inserido e no relatório de reavaliação elaborado pela PSP, no qual se conclui por um nível baixo de risco".
Os advogados do denunciante que esteve na origem do Football Leaks revelaram que este foi notificado, na passada quarta-feira, de que o Programa Especial de Segurança de que beneficia desde agosto de 2020 terminará no próximo dia 10 de outubro.
"Dentro de poucos dias, sem ter sido previamente ouvido, como a lei exige, perderá a residência protegida e confidencial que lhe foi atribuída e será obrigado a encontrar, com urgência, uma nova habitação, sem qualquer garantia de que a proteção policial se mantenha. A sua situação é agora crítica. As ameaças de que é alvo não são meramente teóricas: em abril passado, foi agredido em Lisboa", adiantaram.
Os advogados salientaram que Rui Pinto cooperou com a justiça portuguesa, e foi precisamente essa cooperação que justificou a sua integração num programa de proteção.
"As suas revelações, utilizadas por numerosas autoridades judiciais, fiscais e desportivas em toda a Europa, a começar por França, contribuíram para reforçar a transparência e a integridade no futebol. Os Estados que beneficiaram da sua atuação não podem simplesmente virar as costas à pessoa que assumiu os riscos necessários para trazer estes factos à luz do dia", acrescentaram.
Rui Pinto beneficiava do estatuto de testemunha protegida há seis anos, quando saiu de prisão preventiva e aceitou colaborar com as autoridades, estando, entre os benefícios perdidos, a casa onde vive sob proteção policial, o fornecimento de documentos com identificação falsa, transporte gratuito e subsídio de subsistência.
O hacker foi condenado no caso Football Leaks, em setembro de 2023, pelo Juízo Central Criminal de Lisboa, a quatro anos de prisão com pena suspensa, por crimes de extorsão na forma tentada, violação de correspondência agravado e acesso ilegítimo. Em novembro de 2023, foi também condenado a seis meses de prisão em França, igualmente com pena suspensa, por aceder ilegalmente a emails do Paris Saint-Germain. Contudo, este ano, foi absolvido de 241 crimes, num segundo processo relacionado com o caso Football Leaks.