Vivemos com saúde, mas falta medir quantos anos vivemos com alegria
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“Sabemos medir quantos anos vivemos e quantos vivemos com saúde. Falta medir quantos vivemos com alegria. Uma criança nascida em Portugal em 1960 podia esperar viver cerca de 64 anos. Hoje pode esperar viver quase 82. Em pouco mais de meio século ganhámos quase duas décadas de vida. Há poucas conquistas na história da humanidade com esta dimensão.
E, no entanto, falamos delas como de um fardo. A palavra envelhecimento aparece nos jornais ao lado de insustentabilidade, pressão sobre o SNS, inverno demográfico. As pessoas mais velhas surgem como um custo a gerir e raramente como um capital a mobilizar.
A gerontóloga norte-americana Kerry Burnight propõe, no livro Joyspan (2025), uma terceira medida ao lado da esperança de vida e da esperança de vida saudável: os anos que vivemos com alegria. Assenta-a em quatro verbos, crescer, ligar, dar e adaptar. A ideia parece leve, mas a ciência mais recente dá-lhe peso.
Mariana Carreira é presidente da Fundação Alegria de Viver© Fundação Alegria de Viver
Um estudo da Universidade de Yale publicado este ano, que acompanhou durante 12 anos milhares de pessoas com mais de 65 anos, concluiu que quase metade melhorou as capacidades cognitivas, a mobilidade, ou ambas. Melhorar na velhice não é raro, é comum. E melhoravam mais as que tinham crenças positivas sobre o envelhecimento, as que acreditavam que é bom envelhecer.
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O segundo ingrediente é o propósito. A investigação sobre longevidade converge num ponto: quem tem uma razão para sair de casa, alguém que conta consigo, um lugar onde a sua presença faz diferença, vive mais e vive melhor. Ensinar, cuidar, fazer voluntariado, passar a outros o que se sabe, não são passatempos. São saúde.
Nada disto nega as dificuldades. Portugal vive mais, mas nem sempre vive melhor, e a esperança de vida saudável continua abaixo da média europeia. A doença, a perda, a dependência e a pobreza na velhice existem e exigem políticas sérias. Mas a longevidade com qualidade vai muito além dos cuidados de saúde. Constrói-se na comunidade, nas relações do dia a dia, na forma como olhamos para quem envelhece, e na forma como cada um olha para o próprio futuro.
Três mudanças parecem-me urgentes. A primeira é de linguagem: falar de longevidade como aquilo que é, uma conquista coletiva, e não apenas como uma rubrica de despesa. A segunda é de oportunidade: criar, nas autarquias, nas escolas e nas empresas, espaços onde a experiência das pessoas mais velhas seja pedida, e não apenas tolerada. A terceira é pessoal: preparar os vinte ou trinta anos depois dos 60 com a mesma seriedade com que preparamos uma carreira.
Envelhecer é natural e é uma das conquistas mais fantásticas da humanidade. Mas precisamos de criar as condições para que todos possam envelhecer com propósito, com os outros e com alegria.
É isso que fazemos todos os dias na Fundação Alegria de Viver. Criamos rotinas na comunidade que geram vínculos e dão a cada pessoa mais velha um lugar, um papel e um motivo para sair de casa. Juntamos gerações que raramente se cruzam, para que jovens e mais velhos aprendam uns com os outros. E promovemos a literacia para a longevidade, porque preparar os anos que ganhámos também se aprende. Acreditamos que estamos a construir um modelo intergeracional e de entreajuda, que cuida da saúde relacional: uma rede onde cada pessoa sente que pertence.
Há décadas que medimos quantos anos vivemos. Está na hora de nos perguntarmos quantos vivemos com alegria.”