Portuguesa investiga tratamento para doença que mata bovinos em África
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Uma cientista portuguesa lidera uma equipa que está a investigar um novo tratamento contra a nagana, uma doença parasitária que mata milhões de cabeças de gado em África todos os anos, num projeto com a duração de três anos.
O projeto, liderado em Portugal por Sara Silva Pereira, investigadora do Católica Biomedical Research Centre e docente da Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa, visa desenvolver um tratamento menos suscetível ao desenvolvimento de resistências e mais seguro para os animais.
A nagana, ou tripanossomíase animal africana, está disseminada em 37 países africanos, incluindo Angola, Moçambique, Uganda e Quénia, bem como em países da América do Sul, como o Brasil, e na Ásia.
Causada principalmente pelos parasitas Trypanosoma congolense e Trypanosoma vivax, a nagana ameaça mais de 335 milhões de animais e provoca perdas económicas superiores a 1,5 mil milhões de dólares por ano em África e na América do Sul.
Em África, 65 milhões de bovinos vivem em zonas onde circulam duas espécies de Trypanosoma e estão em risco de contrair a doença, que pode afetar qualquer tipo de mamífero.
A doença é transmitida pela mosca tsé-tsé, um vetor, e apresenta sintomas semelhantes aos da doença do sono, que também afeta os seres humanos.
Sara Silva Pereira explicou à Lusa que muitos dos medicamentos atualmente utilizados são antigos e apresentam um elevado grau de toxicidade, chegando, por vezes, a provocar necroses no local da injeção.
"Há tratamento, mas não há vacina", disse a investigadora. A prevenção faz-se através do controlo do vetor, por exemplo, com armadilhas para moscas e banhos inseticidas.
Ao longo dos próximos três anos, o consórcio liderado pela cientista portuguesa vai procurar desenvolver uma terapêutica mais adequada, menos tóxica e menos suscetível ao desenvolvimento de resistências a longo prazo.
Em vez de tentar destruir diretamente o parasita, o objetivo é descobrir formas de impedir que este se fixe aos vasos sanguíneos, um processo associado à sua sobrevivência.
A premissa é verificar se impedir a adesão dos parasitas aos vasos sanguíneos pode travar a progressão da doença, dando mais tempo ao sistema imunitário para combater o parasita.
"Vamos começar o projeto em dezembro e os dados preliminares são promissores", afirmou.
Se a estratégia for bem-sucedida, a equipa poderá avançar para financiamento adicional, que permita iniciar uma nova fase de testes nos hospedeiros.
As duas espécies principais, Trypanosoma congolense e Trypanosoma vivax, diferem nos vetores e nas formas de transmissão. No Brasil, onde não existem moscas tsé-tsé, a doença passou a ser transmitida por outros tipos de moscas.
Sara Silva Pereira adiantou que, nestes países, os bovinos não estão habituados ao tripanossoma e, quando ocorre uma infeção, a taxa de mortalidade é elevada, podendo atingir 70% por manada. A doença causa também infertilidade, perda de peso e anemia.
O Brasil, onde a indústria pecuária é um dos pilares da economia, está entre os países com mais surtos registados.
O projeto foi um dos distinguidos no Health Research Call 2026, da Fundação "la Caixa", um programa de financiamento de projetos de investigação em biomedicina e saúde.
O consórcio do CytoBlock reúne equipas do Católica Biomedical Research Centre, da Universidade de Notre Dame, no estado de Indiana, Estados Unidos, da Universidade de York, no Reino Unido, e da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
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