Oficina de Paderborn reabre em novas instalações com português na direção
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A Oficina da Cultura de Paderborn reabriu em setembro, após uma profunda renovação, com novas instalações para mais de 140 associações, entre as quais Os Lusitanos de Paderborn, representada na direção por Artur Domingues.
"Ali podemos desenvolver os nossos sonhos, a nossa cultura", disse à Lusa Artur Domingues, que integra a direção da Kulturwerkstatt desde 1988 e a preside desde 2018, num percurso ligado à criação e consolidação deste espaço de encontro entre comunidades.
Domingues chegou a Paderborn em 1980, aos 17 anos, para se juntar ao pai, emigrado na Alemanha desde 1972. Cresceu em Lisboa, numa zona que recorda como difícil, e a mudança para a cidade alemã representou uma rutura com a vida que conhecia.
"Quando eu cheguei a Paderborn, vim ter com o meu pai, passar só as férias de verão, a partir desse momento, eu cheguei ao paraíso", contou.
Depois de aprender alemão num curso intensivo, começou a trabalhar numa fábrica de tubos de aço, mas optou por uma formação profissional em mecânica industrial e soldadura. Trabalha na mesma empresa há cerca de 45 anos, a mesma onde trabalhou o pai e onde agora também trabalha um dos filhos.
A ligação à comunidade portuguesa surgiu através de um grupo de jovens com quem criou um grupo de teatro, um rancho folclórico e uma equipa de futebol. A associação Os Lusitanos de Paderborn foi formalizada no início da década de 1980, com o objetivo de promover a cultura portuguesa e o convívio entre emigrantes.
"Eu consegui, graças a Deus, com os mais jovens, alguns deles ainda estão atualmente na Associação dos Lusitanos, formámos um grupo de teatro", recordou.
Em 1987, Domingues foi convidado pela Câmara de Paderborn a participar nas reuniões para a criação de uma casa da cultura destinada a associações sem instalações próprias. O projeto foi acolhido pelos Lusitanos e a Kulturwerkstatt abriu oficialmente em 1988, num antigo armazém disponibilizado pela autarquia.
"Eu disse aos meus amigos, olha, nós nunca vamos conseguir pagar uma mensalidade de 400, 500 marcos por mês para um centro, um cantinho no fundo de uma rua. Aqui é o lugar ideal", recordou.
O edifício municipal foi alvo de obras de renovação e ampliação que se prolongaram por cerca de quatro anos. As novas instalações têm aproximadamente 3.300 metros quadrados e incluem um grande salão para eventos, cafetaria, salas de ensaio de dança, ateliers de fotografia e pintura e um estúdio de teatro de marionetas.
A reabertura oficial aconteceu em 27 de setembro. Estavam inscritas 140 associações, enquanto outros 15 grupos manifestaram interesse em aderir. A gestão administrativa é assegurada pela Câmara Municipal e a programação cultural cabe às associações.
A direção tem 10 elementos, três representantes da autarquia e sete eleitos pelas associações. Domingues é um dos representantes eleitos e destaca a cooperação entre os grupos como uma das principais vantagens do espaço.
"Cada associação tem a sua atividade, mas estamos todos interligados", explicou, referindo que a divulgação dos eventos circula entre as diferentes comunidades e permite alargar o público de cada iniciativa.
Os Lusitanos de Paderborn organizaram em 1993 a primeira Noite de Fado na Kulturwerkstatt. Depois de uma interrupção motivada, entre outros fatores, pela doença e morte do pai, Domingues retomou a iniciativa com o incentivo de um amigo. O evento tornou-se o principal momento anual da associação e atrai público de várias cidades alemãs, incluindo Berlim, Hamburgo, Estugarda e Colónia.
Em 2019, a antiga sala recebeu 319 pessoas para o espetáculo. A edição deste ano está marcada para 21 de novembro, já nas instalações renovadas, com fadistas naturais de Cantanhede e um grupo de antigos estudantes da Faculdade de Economia do Porto dedicado ao Fado de Coimbra.
"Para mim, a minha equipa maravilha são sempre os maiores", sublinhou Artur Domingues, atribuindo o reconhecimento ao trabalho dos colaboradores que o acompanham há décadas.
O responsável prepara agora a 40.ª Noite de Fado, prevista para 20 de novembro de 2027, e quer criar na Oficina da Cultura a primeira escola de fado na Alemanha.
O alemão é a língua comum da instituição, embora cada associação possa usar a sua língua nas atividades próprias. Para Domingues, a convivência entre comunidades é uma das marcas do espaço.
"A harmonia que existe naquela Oficina da Cultura, toda a gente se apercebe disso", realçou.