"Nojento, vergonhoso": Figuras públicas revoltam-se contra carga policial
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Este fim de semana as notícias em Portugal ficaram marcadas pela forma como terminaram as manifestações pela habitação em várias cidades do país. Na madrugada de sábado para domingo nas acampadas do Rossio, em Lisboa, e da praça D. João I, no Porto, houve intervenção policial e a operação gerou confrontos. Em Lisboa, pelo menos 27 manifestantes ficaram feridos e houve pessoas que foram detidas.
As imagens da intervenção policial e da violência gerada estão a dividir opiniões e a causar enorme revolta entre o povo português.
Também entre figuras públicas e famosos surgiram no decorrer das últimas horas manifestações de descontentamento e crítica perante o que se vive atualmente no país.
As marcantes e emotivas reações dos famosos à carga policial
Nuno Markl não foi às manifestações, porque "o corpo ainda o não permite" devido aos dois AVC's que sofreu em novembro do ano passado, mas teve lá amigos e família.
"As descrições que me fazem são a definição de um protesto pacífico. Sem armas, violência, vandalismo, sem montras partidas ou carros em chamas. A minha irmã fala do cuidado das pessoas umas com as outras. Amigos falam-me da música ao vivo, da arte ao vivo, pessoas a exercer o seu direito democrático de se manifestar", começou por dizer, mostrando-se incrédulo com a violência que se viveu na madrugada de sábado para domingo.
"Depois vejo os vídeos, e vejo cães, bastonadas de uma violência extrema contra as pessoas que vi nas fotos do Goulão e que poderiam ser familiares ou amigos meus, gente sem um grama de violência na sua alma", lamentou.
"Depois vi as guerras nos comentários de Instagram, e pensei se todas aquelas pessoas a insurgir-se contra os manifestantes e a insultá-los, louvando a tareia que levaram e sugerindo que ainda levaram poucas, se nenhuma delas faz contas ao fim do mês para conseguir pagar a renda e comer. Se nenhuma delas tem de o fazer, parabéns a elas por isso; zero felicitações pela total ausência de empatia que as faz celebrar o espancamento de outros."
"Sobre a polícia", frisou ter "amigos na PSP por cuja decência" colocaria as mãos no fogo. "Sei que muitos polícias também se debatem com condições de trabalho e de vida complicadas, e alguns partilharão os mesmos problemas que tantos dos manifestantes. Isso torna esta carga desproporcionada ainda mais perturbadora."
A regressar de uma viagem à China, Rita Ferro Rodrigues reagiu através das redes sociais aos últimos acontecimentos passados em Portugal.
"Em trânsito China - Lisboa mas o meu coração está no Rossio. Pelo Direito à habitação. Pelo Direito à manifestação, pela indignação com a violência policial inadmissível, pela liberdade- que é inegociável para de todos os democratas, sejam de esquerda ou de direita. Saiam à rua, pacificamente. Não cedam perante a repressão de direitos fundamentais", apelou.
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Sofia Ribeiro, que durante a passada semana esteve nas manifestações pela habitação, em Lisboa, lamentou profundamente as divisões de opiniões que neste momento geram ainda mais violência nas redes sociais.
"É tão triste ver que estão a conseguir pôr-nos uns contra os outros, numa causa que diz respeito a todos."
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Ana Moura, que já tinha estado durante a semana a cantar na acampada, voltou à rua este fim de semana. A fadista esteve na manifestação durante o dia e até levou a filha, Emília, de quatro anos, provando tratar-se de um protesto pacífico e que, segundo a própria, não merecia como resposta a violência.
"Ontem estive na acampada, com a minha filha, que ia brincando e sendo acarinhada pelas pessoas que passavam por nós, ouvimos música, dançamos e emocionamo-nos com discursos de pessoas que têm os seus trabalhos e casas para onde regressar mas que não deixam de lutar para que todas as outras possam usufruir desse mesmo direito. Estamos aqui a falar de humanidade, empatia e a única resposta que têm é a violência. Que país é este em que nos tornamos sem darmos conta? A preocuparmo-nos mais com tendas do que com pessoas?", pode ler-se na partilha da artista.
"Quem viu o Insuficiente, sabe um bocadinho mais da minha vida do que a larga maioria das pessoas. E sabe que estou longe de ter nascido em berço de ouro. Vivi a maior parte da minha infância em casas arrendadas, até os meus pais (ambos funcionários públicos, classe média mais baixa do que alta) terem decidido comprar", foi desta forma que Ana Garcia Martins, conhecida como A Pipoca Mais Doce, deu início a uma emotiva partilha sobre a carga policial conta os manifestantes pela habitação.
"Não tive de ficar presa a um casamento, porque sou financeiramente independente. Mas não sei se será sempre assim. Então tenho essa obsessão de amortizar a casa, de não ter dívidas, de não gastar mais do que posso, de ter o futuro minimamente precavido e de ainda me sobrar algum para as coisas que me dão prazer. Mas a larga, larguíssima, maioria das pessoas, não vive assim. [...] E nem se pode reclamar, querem-nos calados e mansos, porque assim parece que isto é tudo normal. Não é. E dá-me muita vergonha e medo do que nos espera. Enquanto nos vai faltando tudo o resto que, pelo menos, não percamos a coragem e a voz."
Luís Borges considerou "nojento e vergonhoso" o que aconteceu na madrugada de sábado para domingo no país e ainda enviou um recado a quem ignorou o que aconteceu e usou as redes sociais como se dias banais se tratassem.
"E para todos aqueles que hoje começam os vossos stories com um:
- Bom dia;
- Um bom domingo;
- Códigos de descontos para suplementos - publicações de publicidades;
- Pequenos almoços em hotéis - vídeos na discoteca a dançarem, Etc.
Deviam de ter vergonha na cara. Esta causa é de TODOS", lembrou.
© Reprodução Instagram
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"A maior violência é despertar violência no povo que só pede justiça", foi com esta frase que Carolina Deslandes resolveu insurgir-se publicamente perante os últimos acontecimentos.
"Querem falar de «esquerdalhos sujos», de «arruaceiros», querem insinuar que quem se manifesta não quer é trabalhar. Como viram que não funciona, e que são cada vez mais corpos multiplicados a marchar na avenida, querem agora falar de incumprimento da lei. Que a polícia está a agir para que se cumpra a lei. Já tinham existido acampadas antes, nunca a polícia agiu desta maneira. Isto é repressão. Isto é polícia de agressão pública e não de segurança pública, isto são ordens de cima de quem quer mostrar quem manda, de quem acha que a bater silencia o povo. O país é do povo. O país é O povo. Ouvi-lo não é opcional, silencia-lo é inadmissível, agredi-lo é crime. Hoje todos os caminhos vão dar ao Rossio", apelou a cantora.
A atriz Catarina Siqueira fez menção ao 25 de Abril, lamentando que a carga policial faça lembrar tempos de ditadura.
"Hoje os relógio de TODOS os portugueses atrasaram. Uma hora e 55 anos. Que tempos tristes, vergonhosos e tão assustadores são estes que vivemos."
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