Mosquitos e vírus emergentes em Portugal: Quais os riscos e como prevenir
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Recentemente temos tido em Portugal notícias da presença do mosquito-tigre asiático, que entre outras doenças, poderá ser portador de dengue. Na semana passada, foi também notícia a transmissão pela primeira vez para um humano do vírus shamonda, habitualmente presente em animais pecuários.
A este propósito, a professora da Universidade CESPU, Manuela Oliveira, especialista em saúde pública, preparou um explicador em que procura esclarecer como se transmitem potencialmente estes vírus, quais os cuidados que devemos ter em nossa casa e a perspetiva de que a saúde pública não deve agir apenas reativamente, devendo apostar na prevenção.
© Manuela Oliveira
Em outubro os mosquitos transmissores de doença continuam ativos?
Sim. Embora a atividade dos mosquitos seja geralmente mais intensa nos meses quentes, temperaturas favoráveis e períodos de chuva podem prolongar a sua presença e atividade durante o outono.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta que as alterações climáticas, associadas à precipitação, à humidade relativa, ao grau de urbanização e à disponibilidade de água, podem prolongar os períodos de atividade dos mosquitos e favorecer a sua expansão geográfica.
No caso do mosquito-tigre-asiático (Aedes albopictus), temperaturas entre 25 e 30 °C podem acelerar o seu desenvolvimento, quando existem condições adequadas de água e alimento. O ciclo de vida compreende quatro fases — ovo, larva, pupa e adulto —, cuja duração depende das condições ambientais.
A resistência dos ovos à secura e a capacidade de eclodirem após a chuva facilitam a sobrevivência e a dispersão desta espécie.
E este mosquito-tigre-asiático está presente em Portugal?
Sim. Até 16 de outubro, o mosquito-tigre-asiático foi detetado em 40 concelhos do território nacional, de acordo com a Direção-Geral da Saúde (DGS), incluindo novas localizações como Braga e Amares – o que confirma o alargamento da sua distribuição geográfica.
Esta espécie é um vetor comprovado dos vírus da dengue e da chikungunya, apresentando também capacidade para transmitir o vírus Zika, embora o seu papel epidemiológico nesta última infeção seja menos estabelecido
No continente, o A. albopictus foi detetado pela primeira vez em 2017, na região Norte. A sua expansão internacional foi favorecida pelo transporte de mercadorias, nomeadamente pneus usados e plantas ornamentais, embora não esteja estabelecida a via concreta da sua introdução em Portugal.
Além do mosquito-tigre-asiático, Portugal regista também a presença de outros mosquitos capazes de transmitir a dengue. Na Região Autónoma da Madeira, o A. aegypti foi identificado em 2005, tendo-se estabelecido graças às condições ambientais favoráveis. Em 2012, a região registou um surto com 1080 casos confirmados de dengue.
Como chegaram estes mosquitos a Portugal?
No continente, o A. albopictus foi detetado, pela primeira vez, em 2017, na região Norte do país. A sua introdução no território nacional está associada, entre outros fatores, ao transporte internacional de mercadorias, especialmente de pneus usados e de plantas ornamentais, e a condições ambientais favoráveis.
E qual é o risco de transmissão de dengue em Portugal?
A dengue é uma doença viral transmitida pela picada de mosquitos infetados, principalmente das espécies A. aegypti e A. albopictus. Entre os principais sintomas, destacam-se febre alta, mialgias (dores musculares), as artralgias (dores articulares), as cefaleias (dores de cabeça) e as dores retro-orbitárias (atrás dos olhos). Embora a maioria das infeções seja assintomática ou ligeira, algumas evoluem para manifestações mais graves, com hemorragias, choque circulatório, dificuldade respiratória e lesões graves em órgãos como o fígado, o coração e o cérebro.
A preocupação, a nível nacional, centra-se na expansão de espécies de mosquitos capazes de transmitir o vírus. De acordo com a DGS, até 16 de outubro deste ano, tinham sido identificados 18 casos de dengue, todos em doentes infetados durante viagens ao exterior. Ou seja, até esta data, não tinham sido notificados casos autóctones de dengue.
Contudo, em janeiro de 2025, a Madeira registou dois casos de dengue adquirida localmente. Uma investigação do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) identificou o vírus DENV-2 em mosquitos A. aegypti recolhidos no Funchal, confirmando a ocorrência de transmissão local.
Contudo, a progressão a nível europeu merece atenção. Segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), até 14 de outubro, Itália e França tinham registado, respetivamente, 70 e seis casos de dengue adquirida localmente já neste ano.
É essencial distinguir a presença de mosquitos transmissores da circulação efetiva do vírus. Para que ocorra transmissão local, é necessário que um mosquito adquira o vírus ao alimentar-se do sangue de uma pessoa infetada e, após um período de incubação, o transmita a outra pessoa. Assim, a expansão destes mosquitos aumenta as oportunidades de transmissão, mas não significa, por si só, que o vírus esteja a circular.
E este é o único inseto que nos deve preocupar? Foi também identificado em França o primeiro caso humano de infeção pelo vírus Shamonda. Existe risco de surgirem casos em Portugal?
Outros insetos podem transmitir agentes patogénicos, como os mosquitos Culex (vírus do Nilo Ocidental), os flebótomos (leishmaniose) e os Culicoides, associados sobretudo à transmissão de doenças dos animais.
O vírus Shamonda, transmitido principalmente por Culicoides, foi detetado na Europa no verão de 2026. A sua circulação em animais foi, entretanto, confirmada em Portugal pela Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV).
O risco veterinário está demonstrado. O vírus afeta sobretudo bovinos e ocasionalmente ovinos. Entre os sintomas destacam-se febre, diarreia e redução da produção leiteira; em fêmeas gestantes, podem ocorrer abortos espontâneos e malformações fetais.
O risco para a saúde humana permanece incerto. A 22 de outubro de 2026, as autoridades francesas anunciaram o primeiro caso humano documentado, num doente imunodeprimido que faleceu no início desse mês. A eventual contribuição do vírus para a morte, bem como a via de transmissão, continuam sob investigação. As autoridades francesas não identificaram, até à data, risco sanitário para a população geral.
Em Portugal, a circulação do vírus em animais exige vigilância veterinária, enquanto o potencial risco humano requer investigação, numa abordagem integrada de Uma Só Saúde (One Health).
Como podemos prevenir a proliferação de mosquitos e reduzir o risco de dengue e de outras doenças?
A medida prioritária é eliminar os criadouros dos mosquitos Aedes, esvaziando e esfregando semanalmente os recipientes que acumulam água, mantendo os depósitos tapados, limpando as caleiras e removendo objetos que possam reter água da chuva. A limpeza é essencial porque os ovos podem permanecer aderentes às superfícies, mesmo após o esvaziamento.
A proteção individual inclui repelentes adequados, vestuário que cubra a pele e redes mosquiteiras.
A vacinação constitui uma medida complementar de prevenção da dengue. A vacina Qdenga está autorizada na União Europeia para pessoas a partir dos quatro anos, mas a sua utilização depende de recomendações específicas, não estando indicada a vacinação generalizada da população portuguesa.
Na saúde animal, a prevenção exige medidas diferentes, uma vez que os Culicoides apresentam locais de reprodução distintos dos mosquitos Aedes. Para reduzir a transmissão do vírus Shamonda, DGAV recomenda proteger os animais das picadas de Culicoides, utilizando, quando indicado, repelentes e inseticidas autorizados. Atualmente, não existe vacina contra este vírus.
A prevenção eficaz exige medidas adaptadas a cada vetor, vigilância continuada e utilização criteriosa de inseticidas.
A estratégia nacional de saúde pública devia ser mais ativa?
Portugal deve privilegiar uma postura proativa de antecipação de riscos, em vez de apenas atuar quando surgem os primeiros casos.
A Rede de Vigilância de Vetores (REVIVE) permite acompanhar a distribuição e a atividade de mosquitos, carraças e flebótomos, bem como detetar agentes patogénicos relevantes para a saúde pública. No caso do vírus Shamonda, são também essencial a vigilância veterinária e a articulação com os serviços de saúde humana.
Contudo, será necessário reforçar a articulação entre a vigilância entomológica, a epidemiologia, o diagnóstico laboratorial, a investigação científica, as autoridades locais de saúde pública e o planeamento urbanístico. A OMS e a ECDC sublinham a importância da vigilância contínua, da deteção precoce e da participação comunitária.
A experiência da Madeira demonstra que a persistência dos vetores pode permitir novos episódios de transmissão local quando o vírus é reintroduzido, mesmo após vários anos sem surtos significativos.
O desafio no âmbito da saúde pública não se centra apenas no controlo dos vetores, mas também em impedir que a sua expansão resulte na transmissão sustentada de doenças, como a dengue. E isso exige vigilância permanente, preparação dos serviços de saúde e capacidade de resposta antecipada.