Mais previsões: Meteorologia 25 dias

PUBLICIDADE

Médica portuguesa alerta que controlo do Ébola na RDCongo está longe

...


                    Médica portuguesa alerta que controlo do Ébola na RDCongo está longe
Médica portuguesa alerta que controlo do Ébola na RDCongo está longe (Foto: Reprodução)

A médica portuguesa Rita Magano conhece a realidade na linha da frente do Ébola na República Democrática do Congo (RDCongo), onde doentes chegam tarde aos centros de tratamento, enquanto outros continuam a morrer nas comunidades.

Coordenadora dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Bunia, na província de Ituri, Rita Magano acompanha a gestão clínica no Centro de Tratamento de Ébola (CTE), mas também a vigilância epidemiológica e a resposta junto das comunidades.

A rotina começa cedo, com a passagem de turno para saber quantos doentes estão internados, quais as dificuldades e se existem casos que precisam de ser transferidos. Segue-se o apoio às equipas médicas, a validação de medicamentos, a gestão dos óbitos e dos enterros seguros e dignos, além do acompanhamento das equipas que trabalham nas comunidades.

"Passa um bocado de tudo, às vezes um bocado de bombeiro", resume, à Lusa, a médica, que também acompanha dois centros de saúde, com apoio em medicamentos e formação para o tratamento de outras doenças.

No CTE, a realidade continua a ser marcada pela chegada de doentes em estado grave. Antes de entrar nas zonas de alto risco é necessário cumprir procedimentos de proteção e planear a intervenção, mas, quando os doentes chegam demasiado tarde, nem sempre é possível fazer alguma coisa.

A morte de um doente não significa, contudo, que a equipa possa parar. "Não é porque se perde uma vida que se vai baixar os braços", afirma Rita Magano, explicando que outros doentes chegam e é necessário continuar a ter capacidade para lhes prestar os melhores cuidados possíveis.

A médica salienta que o número de mortes registadas nos centros não traduz toda a dimensão do problema. Em Bunia, apesar de uma redução das admissões, "ainda existem muitas pessoas que morrem a nível comunitário", o que mostra a necessidade de reforçar a resposta fora dos centros de tratamento e em zonas mais isoladas.

Com casos reportados em sete províncias, "ainda é cedo para dizer que a curva começa a descer", sublinha, apontando a desconfiança e o medo da população como outra das dificuldades no combate ao surto.

"As pessoas continuam a ter medo de ir a um centro de tratamento de Ébola", conta Rita Magano, defendendo que a resposta passa por esclarecer os rumores e trabalhar com as comunidades.

"Não lhes dizer que elas estão erradas, mas esclarecer os rumores que correm em relação aos centros de tratamento", explica, considerando essencial envolver líderes comunitários e religiosos, responsáveis pela identificação precoce de casos e pelo corte das cadeias de transmissão.

"Sem que exista uma forte interação e coordenação com a parte comunitária, líderes comunitários, chefes religiosos (...) dificilmente se consegue travar e parar a epidemia", alerta.

A situação epidemiológica continua, por isso, difícil de interpretar. Embora Ituri e Bunia apresentem sinais de abrandamento em alguns indicadores, outras zonas continuam a registar novos casos.

"É difícil dizer que se está, de facto, a entrar numa fase de estabilidade, e que a curva comece a descer, ainda é cedo para dizer isso", afirma.

Segundo os dados mais recentes do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), a RDCongo registava, até 04 de outubro, 8.603 casos confirmados e 4.148 mortes, com 896 doentes hospitalizados em isolamento. Ituri continuava a ser a província mais afetada, com 6.450 casos e 2.968 mortes.

A falta de uma vacina para o surto provocado pelo vírus Bundibugyo, faz com que a resposta clínica dependa, ainda mais, do diagnóstico precoce, dos cuidados de suporte e do controlo da transmissão, enquanto decorrem estudos sobre potenciais vacinas e tratamentos.

A vacina contra o Ébola desenvolvida para o vírus Zaire começou entretanto a ser administrada a profissionais da linha da frente, no âmbito do estudo PARTNERS que procura avaliar o seu eventual efeito neste surto.

Rita Magano faz questão de moderar as expectativas, mas a possibilidade de uma "imunidade cruzada" é uma luz ao fundo do túnel: "Não é a vacina específica para este vírus, (...) espera-se que exista alguma imunidade cruzada que permita, pelo menos, reduzir a mortalidade".

A médica portuguesa considera que a dimensão do surto — com uma mortalidade próxima dos 50% — torna difícil pensar que seja possível reduzir o esforço internacional. E lembra que, além do Ébola, é preciso manter a assistência a doentes com malária, cólera, VIH, tuberculose ou doenças crónicas.

"A grande dificuldade e a grande dor de alma é o facto de ter uma epidemia que continua a afetar uma população muito fragilizada, com um sistema de saúde ainda muito precário, e na qual o fim ainda parece longínquo", desabafa Rita Magano.

"Ainda está longe" o momento em que será possível dizer que a epidemia está controlada e vai acabar, conclui.