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Manosfera deve ser tratada como questão de saúde pública, tal como tabaco

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                    Manosfera deve ser tratada como questão de saúde pública, tal como tabaco
Manosfera deve ser tratada como questão de saúde pública, tal como tabaco (Foto: Reprodução)

A manosfera – uma comunidade online que preconiza uma visão machista ou de defesa da masculinidade contra a autonomia feminina – deve ser encarada como um problema de saúde pública, equiparado à obesidade e ao tabagismo, de acordo com um estudo divulgado esta sexta-feira na revista The Lancet.

 

"Os problemas dos homens são apresentados [na manosfera] como resultado do feminismo, em vez de condições estruturais, e a identidade masculina é mercantilizada através de produtos e conteúdos pagos que normalizam e reforçam masculinidades prejudiciais à saúde e orientadas para o desempenho", consideraram os autores.

O trabalho, que definiu manosfera como "um conjunto informal de comunidades online unidas por crenças partilhadas sobre a masculinidade, a misoginia e a vitimização masculina", elucidou ainda que o fenómeno pode ser equiparado a "um ecossistema comercial", já que "as receitas são geradas através da publicidade nas plataformas, de modelos de subscrição e da criação de conteúdos".

"Os algoritmos promovem conteúdos que maximizam a atenção e a monetização. Esta amplificação não é passiva: os incentivos financeiros que estruturam a manosfera recompensam as expressões mais extremas de misoginia e de masculinidade tóxica, porque a indignação e o ressentimento são bons para o negócio", complementou.

Aliás, os estudiosos indicaram que, "à semelhança das indústrias do tabaco e dos alimentos ultraprocessados, os criadores de conteúdos e as plataformas utilizam estratégias que individualizam a responsabilidade", sendo que "os esforços para regulamentar ou moderar os conteúdos são frequentemente apresentados como ameaças à autonomia dos homens, restringindo o espaço político para a intervenção".

O relatório frisou, assim sendo, que é necessária uma resposta coordenada entre governos, escolas, serviços de saúde e organizações comunitárias, semelhante ao combate à obesidade e ao tabagismo, além da garantia de "acesso equitativo aos serviços de saúde mental e a outros serviços de saúde de primeira linha" e da "promoção do emprego e das competências para melhorar o acesso ao mercado de trabalho".

As estratégias devem ainda evitar "enquadrar a masculinidade como inerentemente tóxica ou os rapazes e os homens como inerentemente problemáticos". Isto porque, na ótica do especialistas, a exclusão social e o isolamento são dois dos fatores que levam os homens a consumir este tipo de conteúdos.

"Trata-se de um modelo de negócio, não de um fenómeno marginal. A indignação e o ressentimento são bons para o negócio, pelo que o sistema recompensa os conteúdos mais extremos. Esperem ver a mesma estratégia que funcionou tão bem para a indústria do tabaco: culpar o indivíduo e rotular a regulamentação como um ataque à liberdade. A saúde pública dispõe de um conjunto de ferramentas comprovadas para combater os danos comerciais e devemos utilizá-las", defendeu o professor Kent Buse, coautor do artigo e cofundador do grupo de reflexão sobre justiça social Global 50/50.

O estudioso vincou também que "os rapazes e os homens não são o problema", mas sim "as condições que os deixam isolados e sem um futuro seguro, e as empresas que lucram com a sua raiva e insegurança".

Já a professora Sarah Hawkes, coautora do relatório, realçou que "a manosfera oferece aos rapazes e aos jovens um sentimento de pertença, identidade e uma explicação para o facto de a vida parecer difícil".

"Essas necessidades são reais. Uma resposta que se limite a eliminar a manosfera, sem oferecer algo credível no seu lugar, falhará. Temos de oferecer aos rapazes algo melhor, não apenas dizer-lhes o que devem evitar", sustentou.

"O produto cultural mais popular de hoje é, provavelmente, a pornografia"

Jornalista na revista The Atlantic há 12 anos, Sophie Gilbert debruçou-se sobre o quanto a cultura – e a misoginia – dos anos 2000 moldaram as mulheres desde a infância, levando uma geração "a voltar-se contra si própria".

Daniela Filipe | 10:40 - 25/06/2026