Habitação: Vocalista do Clã "comovida e esperançada" com protesto
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A vocalista dos Clã, Manuela Azevedo, disse hoje à Lusa ter ficado "comovida e esperançada" com o que tem assistido na Praça D. João I, no Porto, onde atuou durante o protesto pelo direito à habitação.
"Vemos o que se passa nesta praça e ficamos sem perceber porque é que o mundo não se resolve, porque tudo parece muito mais simples quando as pessoas se encontram cara a cara, conversam, discutem, levantam o braço para dizer o que têm a dizer, têm um tempo para o dizer, dizem e cumprem. Esse exercício de democracia direta que vi ontem [segunda-feira] deixou-me mesmo muito comovida e esperançada com o que possa vir no futuro", assinalou, em entrevista à Lusa.
Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves tocaram pela banda na abertura da concentração de hoje, que levou mais de um milhar de pessoas à praça, até à Câmara do Porto, e de regresso ao local onde desde 10 de outubro se têm concentrado e acampado.
Depois de acatarem as ordens da PSP para desmontar as tendas, na manhã de hoje, voltaram, com Manuela Azevedo a lembrar que o ser humano é por natureza "gregário, em comunidade, uns com os outros".
"Foi uma experiência de como isso é realmente a solução para tudo. É por isso que, enquanto cidadã, também fico muito triste por não ver os políticos que têm muito a aprender com aquilo que se faz nesta praça e em outras praças do país, e porquê é que eles não descem à rua, porquê é que eles não vêm cá e olham as pessoas na cara e conversam com elas cara a cara?", questiona.
Para a artista, assembleias populares como as que se realizam neste local quase todos os dias (hoje foi exceção) "começam a ser um pouco a solução para muitos problemas".
"Nós vemos isso, por exemplo, na luta nas Covas do Barroso que está a ser feita por uma comunidade. Mais ninguém está, ninguém do nosso poder os está a acudir. Eles estão não só a defender a sua vida, a sua casa, a sua terra, mas estão a defender o nosso país. Porque aquele território é precioso para nós, para a nossa água, para a nossa paisagem, para a sustentabilidade do nosso país", refere.
Os Clã foram, depois, sucedidos por Capicua e por uma sessão de leitura de poesia, mantendo-se algumas centenas, cada vez menos, ao longo da noite.
A noite contou ainda com uma videoconferência com várias acampadas em Espanha, incluindo Madrid, levando os presentes a cantar "Grândola, Vila Morena" com outros protestos.
De resto, na praça ouviram-se muitos cânticos e palavras de ordem, repuseram cartazes e faixas, como "Rendas de Luxo, Ordenados de Lixo", "Filhos da Pide" ou "25 de Abril sempre".
Os presentes continuam no local apesar de a organização ter apontado a um regresso em força no sábado, sem que tenham confirmado qualquer desmobilização ou mobilização, falando apenas em "folgas" permitidas pelas forças policiais, num comunicado enviado hoje à noite.
Os atuais protestos pelo direito à habitação e o custo de vida em Portugal tiveram início na cidade do Porto, a 10 de outubro, com cerca de 1.500 manifestantes a juntarem-se na Praça D. João I e a pernoitarem no local em tendas de campismo.
Nesse dia, a plataforma cívica "Não dá mais para viver assim" promoveu protestos também em Aveiro, Braga e Lisboa reivindicando o controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis, impostos sobre os lucros extraordinários das grandes empresas do setor bancário, energético e da distribuição e medidas que respondam à crise na habitação.
A 15 de outubro, o movimento que protestava no Porto, já no formato de uma acampada, denunciou uma carga policial violenta durante a madrugada que causou ferimentos em 39 dos participantes, dois dos quais ficaram em estado grave, e num polícia, e à noite cerca de três mil pessoas juntaram-se aos manifestantes iniciais, mas acabaram por dispersar.
As tendas voltaram ao local no sábado e a acampada alastrou nesse dia à cidade de Lisboa. Hoje de madrugada, enquanto o protesto da cidade nortenha foi terminado perante os avisos de intervenção policial, as autoridades removeram dezenas de tendas na capital e detiveram 55 pessoas por desobediência, entretanto libertadas que serão ouvidas na quarta-feira por um juiz.
Novas assembleias populares estão também marcadas para hoje em Lisboa e cidades como Coimbra, Braga ou Faro.
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