Habitação: Acampada é estratégia "relativamente nova" em Portugal
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A socióloga Lígia Ferro considerou hoje à Lusa que a estratégia de acampadas é "relativamente nova" em Portugal, mesmo que movimentos de jovens ocupem o espaço público desde o Maio de 68, em França.
"Desde o maio de 68 que temos protestos de jovens no espaço público. Também tivemos o movimento Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, que também foi um exemplo, e já houve a partir daí várias acampadas, em vários países (...) Essa estratégia não é absolutamente nova, embora seja relativamente nova em Portugal", defendeu a professora na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (PLUP).
A acampada que começou há uma semana no Porto segue a estratégia de dezenas de cidades em Espanha, que arrancaram com essa estratégia já há semanas, numa luta pelo direito à habitação que tem alastrado também a outras cidades europeias.
Para hoje, está marcado não só o regresso às tendas no Porto, onde os manifestantes têm enfrentado ações de limpeza e uma carga policial que causou dezenas de feridos, mas também em Lisboa, pelas 17:00.
"Nós vemos cada vez mais empreendimentos turísticos, imobiliários, que acabam por, de certa forma, diminuir ou prejudicar ou afetar de alguma forma a vivência da cidade. Portanto, os jovens têm essa estratégia de ocupar o espaço público, de mostrar que estão ali a reclamar o seu direito à cidade, como falava Henri Lefebvre", acrescentou.
A também presidente da Associação Portuguesa de Sociologia nota como muitos dos jovens envolvidos com a manifestação pertencem à geração "mais escolarizada de sempre".
"Nós sabemos que no dia da intervenção policial [a madrugada de quinta-feira] tínhamos muitos estudantes naquela acampada. Temos jovens que estão no ensino superior, que adquiriram uma série de conhecimentos, têm outras noções de organização, de articulação, e pensam o movimento de uma forma mais coletiva e organizada, digamos assim, do que, se calhar, no passado em Portugal", refletiu.
Esta consciência aliada à luta pela habitação faz com que surja uma forma "mais estruturada para a ação coletiva", afirmou ainda a especialista, que defende que "o próprio Governo devia sentar-se à mesa com estes movimentos".
"Tentar ouvir as reivindicações, o que estes protestos dizem, e tentar encontrar soluções para as pessoas. No fundo, é isso que a política deve fazer", referiu a ex-presidente da Associação Europeia de Sociologia.
Para Lígio Ferro, a atuação policial acabou por "inflamar muito outras pessoas" e transformar uma contestação maior do que o grupo de jovens no coração das manifestações.
"Aquilo que aconteceu no Porto [na noite de quinta-feira] foi a demonstração de uma indignação da população em geral, de várias gerações, que perceberam que havia um protesto pacífico, e houve uma carga policial completamente desproporcionada", lamentou.
Convidando os decisores políticos a tentarem "parar para pensar porque é que as pessoas estão tão chateadas e a protestar", o contexto das cidades portuguesas ao longo dos últimos anos ajuda a explicar a situação difícil que muitos cidadãos vivem, aliado à conjuntura internacional.
De um lado, a mudança internacional para governos "que acabam por trabalhar com ideologias de extrema-direita" trouxe guerras, como na Ucrânia, na Palestina e no Irão, o que teve impactos económicos e na coesão social um pouco por todo o lado, a começar pela "ascensão do discurso de ódio" e a polarização na sociedade.
"As pessoas sentem no dia a dia o aumento do custo de vida. Combinado com problemas antigos que não foram resolvidos atempadamente pelas políticas públicas, em particular o problema da habitação, o fenómeno da turistificação e da gentrificação associada, acaba por gerar uma série de condições muito desfavoráveis", analisou.
Esta geração mais nova, a mais escolarizada de sempre no país, acaba por ser "uma geração um pouco condenada a viver muito pior do que os seus pais", na casa dos quais estará também "condenada" a viver, sem autonomia.
"Estes fenómenos têm vindo a gerar uma contestação juvenil que se verifica em vários lugares, não só na Europa. Temos visto também protestos de jovens na Índia. (...) No Porto e Lisboa, temos uma subida acima da média europeia do preço das casas, sem subida dos rendimentos, (...) e tudo isso tem gerado uma onda de indignação e uma certa revolta", acrescentou Lígia Ferro.
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