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"Gostava que houvesse essa reflexão sobre a importância da casa"

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"Gostava que houvesse essa reflexão sobre a importância da casa" (Foto: Reprodução)

"Casa Pequena" é a estreia dos Capitão Fausto no cinema e com assinatura de Ricardo Oliveira, que realizou este primeiro filme da banda, que chegou às salas de cinema na quinta-feira, dia 5 de outubro.

 

Em conversa com o Notícias ao Minuto, Ricardo Oliveira detalhou o processo para a concretização desta longa-metragem, que surgiu de uma ideia do manager dos Capitão Fausto, Paulo Ventura, "há quase dez anos", como a banda contou também em entrevista ao Notícias ao Minuto. 

Ricardo Oliveira recordou de início que teve uma "série de sessões de trabalho conjuntas" com o grupo quando decidiram avançar com o filme. Mas a ligação aos Capitão Fausto não é de agora, pois já trabalham juntos há vários anos. Aliás, Ricardo Oliveira foi responsável pela realização de muitos videoclipes do grupo musical lisboeta.

O princípio deste projeto foi muito de "discussão de ideias", entre elas a decisão de "limitar em termos de espaço para rentabilizar o investimento que eventualmente poderiam ter do filme". "Chegou-se àquela ideia de concentrar a história num único décor, num único cenário. E daí surgiu esta ideia de uma casa, e desta casa em particular", acrescentou Ricardo Oliveira, referindo-se à propriedade na Serra da Estrela onde é vivida grande parte desta história.

"A própria história também teria de ser construída a partir de pelo menos cinco personagens. E ia colocando questões: Por que é que vamos contar esta história com cinco personagens se poderíamos contar só com um, ou com dois? Todas estas perguntas que surgiam, procurávamos respostas e a partir daí as coisas começaram a convergir em determinadas ideias, determinados temas", relatou.

E quando chegaram a "um ponto mais ou menos definido do que ia ser a narrativa", Ricardo Oliveira teve o papel de escrever, mas não deixaram de trocar igualmente ideias durante todo o processo com várias reuniões pelo meio. "Foi um processo muito próximo, com muito input deles."

"No processo de escrita muitas vezes acontecia aquela coisa de estar a escrever a cena e depois aquela cena levava-me para outro sítio", recordou também, tendo sido este um processo que levou "um bom período de tempo". Até porque, refere, "eles são músicos, tinham concertos, tinham discos, muitas outras obrigações". "Foi um período em que muitas vezes havia interrupções. O que acaba por ser uma coisa muito vantajosa, porque há tempo para deixar algumas ideias a marinar, e há novas ideias que surgem."

Filme terminado e lançado, "Casa Pequena" conta-nos a história de "cinco músicos que estão numa situação fraturante a nível criativo, emocional e financeiro", e que vão "fazer um retiro numa casa isolada na Serra da Estrela". Por lá, os músicos encontram "um anfitrião com um passado misterioso" que "precipitará inadvertidamente a banda para o desvendar de uma intriga que lhes é totalmente alheia". "Estará esta casa amaldiçoada ou serão os fantasmas fruto da demência de um homem?"

O filme conta ainda no elenco com atores como Zeca Medeiros, Rita Cruz, Bárbara Lourenço, Ana Vilela da Costa, entre outros.

O filme parte de uma ficção, mas não deixa de ter alguns pontos realistas. Como fez essa ponte de não criar confusão entre a realidade e a ficção?

Há duas coisas, uma delas em relação à contaminação do real. No processo criativo, a certa altura não dá para criar do nada. Há sempre contaminações e são sempre bem-vindas. E um exemplo que dou disso neste filme em particular é, por exemplo, quando surgiu esta hipótese de filmarmos naquela casa na Vila Alzira, de repente quero saber que casa é esta e a história desta casa. Será que isso pode trazer qualquer coisa para o filme? Era uma casa que pertenceu ao Afonso Costa. No filme há uma cena em que se refere a esse proprietário original e isso vem do real. Essa contaminação, se aquilo fizer sentido para a ideia, para o tema que temos para o filme, vamos aproveitá-la.

Depois, num segundo ponto, havia a questão de eles serem figuras públicas. E houve coisas engraçadas, quando começámos a ter um argumento mais concreto, logo no início, na primeira versão, para eles conseguirem ter uma perspetiva um bocadinho mais crítica e desapegada daquilo que estavam a ler, para conseguirem ver o filme, decidimos que não íamos usar os nomes deles. Para não estarem a ler e não terem aquele pensamento de "este sou eu, o Domingos", inventámos uns nomes para eles conseguirem ganhar uma certa distância.

Não são os Capitão Fausto, mas também não são outras pessoas, continuam a ser eles. São os Capitão Fausto que todos conhecemos, mas numa realidade um bocadinho alternativa

A ideia era que o público não visse ali os Capitão Fausto?

Exatamente. Se isto serviu inicialmente como uma ferramenta de trabalho nesta construção de filme com os Capitão Fausto, numa segunda fase também percebíamos que isso iria fazer imenso sentido porque a maior parte das pessoas que vão ver este filme são fãs dos Capitão Fausto e conhecem-nos. Seria estranho ter alguém tratar o Domingos por Miguel. As pessoas iam saber que não era o Miguel, que era o Domingos.

Há este não compromisso. Não são os Capitão Fausto, mas também não são outras pessoas, continuam a ser eles. Ou seja, se calhar, são os Capitão Fausto que todos conhecemos, mas numa realidade um bocadinho alternativa. E achamos que eles não terem nomes faria sentido.

Sendo um filme de ficção mas com pontos de realidade, o que é ficção e o que é realidade?

Como já toda a gente sabe, o Francisco Ferreira saiu da banda e na altura em que começámos a trabalhar no filme isso já era sabido entre nós. Fez-nos sentido que que deixássemos contaminar a ficção com esse pormenor do real. Mas aquelas coisas de o Ferreira estar com sensibilidade extrema a alguns sons, esse sintoma de que algo está mal e de que ele não se sente bem na banda, isso é completamente ficcionado. Mesmo as dinâmicas deles também foram coisas um bocado criadas do zero.

O que vejo ali, que foi um bocado o que eles sentiram, é que qualquer uma daquelas coisas reflete uma ansiedade que eu, eles, ou se calhar até qualquer pessoa às vezes sente. Foi mais uma coisa de encontrarmos sentimentos que fossem universais e brincar um bocado com eles e exagerar.

Já assisti a muitos momentos de criação onde às vezes as coisas não estão a funcionar. E isso era uma coisa que sabíamos que existia no real, que queríamos trazer para o filme, mas depois o processo foi: Vamos inventar razões para isso, vamos inventar esta história do Manel que está à procura de uma casa que já não se lembra onde é que é e entra numa espécie de viagem meio surrealista…

Também é uma coisa que veio de, a certa altura, eu ter lido um conto do Jorge Luís Borges que tem uma ideia muito parecida, mas o cenário, a situação e os personagens são totalmente diferentes - mas havia esta ideia de alguém que está à procura de alguém e está constantemente a receber relatos contraditórios sobre essa pessoa.

Essas coisas do real são sempre uma mistura. Queríamos que o filme também fosse uma aventura e fosse uma viagem.

As histórias, aquelas com as quais nos identificamos mais é quando há uma emoção ou uma sensação com que qualquer pessoa se relaciona

Não fosse só a história de uma banda e, por isso, criar narrativas diferentes?

Tentámos criar todas essas ideias, e depois para a conclusão narrativa tentámos sempre partir de uma base do real. Não só nas ideias, mas na forma como as coisas são manifestadas no filme. Até poderia dizer que este é um filme um bocado sem género, porque há elementos da comédia, mas…

Tem um pouco de suspense…

E de melodrama... É um bocado difícil não construir uma ficção sem irmos sempre um bocado ao real.

Tendo em conta as pessoas que estão no filme, no cinema todas as histórias têm sempre uma base real?

A nível emocional, sim. Não tem de ser todas necessariamente um registo quase documental de uma coisa que aconteceu. Mas no fundo, as histórias, aquelas com as quais nos identificamos mais é quando há uma emoção ou uma sensação com que qualquer pessoa se relaciona. Isso é verdade naqueles casos extremos em que estamos a falar de cinema de género ou narrativos de género - desde a ficção científica ao terror. Mas depois há temas, há ideias e as pessoas relacionam-se com essas ideias.

Não quero estar a revelar muito ou a atribuir muito significado a coisas no filme porque as pessoas também têm espaço [para as suas interpretações], mas há aqui ideias com que espero que as pessoas se relacionem - com uma ideia de memória, com uma ideia de passado, de família, de comunhão e de diálogo dentro dessa família.

Nestas duas famílias, que é a banda e a outra família, há ali muita coisa que não é dita. Um dos conflitos no filme é conseguir falar, conseguir dizer, o outro ouvir, o outro perceber, o outro aceitar o que está a ser dito. Isto são coisas um bocado universais.

A reflexão que o filme faz vai um bocadinho mais ao lado filosófico disso, que é precisamente esta ideia de casa. Ou seja, por que é que a casa é tão importante

Quando aborda a questão de a banda ter ficado sem casa, e depois também dá um bocadinho a ideia de uma especulação imobiliária no caso da outra família… Isso acabou por ser influenciado pela realidade de hoje em dia ou foi ficcionado?

O processo do filme já começou há alguns anos. 

Também já é um tema de anos - a especulação imobiliária… 

Estas ideias de que estava a falar que são muito reais e muito palpáveis, e com as quais as pessoas se identificam, são coisas que são universais e intemporais. Quando esta ideia surge vem dessa preocupação que já é palpável, que chegou agora a um limite...

Portanto, foi intencional?

Sim, absolutamente intencional. Essa ideia era importante. É importante em qualquer altura. E por um lado fico feliz e espero que filme seja bem aceite, e que consigam encontrar esse paralelismo com o que está pelo mundo inteiro. Mas a reflexão que o filme faz vai um bocadinho mais ao lado filosófico disso, que é precisamente esta ideia de casa. Ou seja, por que razão é que a casa é tão importante.

O grande antagonista, o grande monstro é, no limite, essa ideia da especulação imobiliária a todo o custo. Mas o que gostava era que houvesse essa reflexão sobre a importância da casa, da família e da comunicação. São tudo coisas indissociáveis.

"Filme foi uma experiência enriquecedora. Atirou-nos para fora de pé"

Capitão Fausto acabam de se lançar no cinema com "Casa Pequena". Este desafio atirou a banda para a sétima arte com uma história ficcionada, mas que partiu de "premissas que eram verdadeiras", como a banda explicou em entrevista ao Notícias ao Minuto.

Marina Gonçalves | 13:10 - 05/11/2026