Famílias imigrantes recorrem a doações para gerir orçamento apertado
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A subida do custo de vida está a agravar as dificuldades de muitas famílias imigrantes em Portugal, que, à semelhança de outros portugueses, reduzem despesas com alimentação e recorrem a doações para fazer face aos encargos mensais.
No jardim infantil Unidinhos de Cabo Verde, no Casal da Mira, na Amadora, há quem se preocupe com a situação e à segunda-feira, o centro entrega cabazes alimentares a pessoas carenciadas, para quem os salários e as pensões já não chegam para cobrir as despesas.
São 10:00 e, na cozinha, o aroma do cozinhado que está a apurar num panelão já abre o apetite. Daqui a pouco, o estufado será servido ao almoço às crianças do centro, aos funcionários e a quem precisar.
Nas três salas do jardim infantil, crianças entre os 3 e os 5 anos recebem um reforço alimentar. Muitas não chegaram a tomar o pequeno-almoço em casa, por falta de condições ou porque os pais, apressados, não tiveram tempo.
São praticamente todas provenientes de famílias carenciadas, em que o que ganham "não é suficiente para as necessidades básicas, para alimentação, para vestir", diz Cesaltina Gomes, conhecida por Avó Ciza, auxiliar de educação e um dos pilares do centro, onde trabalha há quase 40 anos.
É também através do seu trabalho que o apoio chega às famílias, sendo a recolha das doações de um conhecido hipermercado feita ao domingo.
Para quem recebe os alimentos, a ajuda faz diferença no quotidiano, marcado pelas dificuldades sentidas com a subida do custo de vida, sobretudo com a alimentação e as despesas de energia
A pressão sobre os orçamentos familiares tem consequências particularmente difíceis para quem dispõe de rendimentos reduzidos e o aumento dos preços tem levado comunidades de imigrantes a equacionar a permanência em Portugal.
Há quem parta à procura de melhores rendimentos em França, Suíça e Luxemburgo, sobretudo os mais jovens, que procuram trabalho em restaurantes, nas limpezas e como auxiliares de ação educativa, relata Cesaltina que já viu amigos partirem em busca de melhores condições.
D. Natália, D. Maria e D. Lena já por ali estão para recolher os alimentos de que precisam. São de ascendência cabo-verdiana e vivem em Portugal há décadas, como muitos dos moradores daquele bairro da Amadora, onde foram realojados muitos antigos moradores provenientes do bairro Estrela da África e das Fontainhas.
Maria Natalina Lopes, de 53 anos, trabalhou nas limpezas, cuidou de idosos e passou por restaurantes. Hoje, porém, os "bicos de papagaio" massacram-lhe as costas e já não consegue estar muitas horas de pé, por isso, às segundas e terças-feiras passa pelo jardim infantil para recolher alimentos. Recebe uma pensão, mas o dinheiro não chega para pagar a renda, a água, a luz, o gás e a alimentação.
"Às vezes há coisas que não dá para a gente comprar mesmo", lamenta.
Diz que também já procurou trabalho, mas que a idade dificulta essa possibilidade.
Tem sete filhos, dois dos quais ainda vivem consigo: a mais nova, de 14 anos, está a estudar, e o de 22 não trabalha.
"A alimentação está muito cara, há coisas que a gente não compra mesmo e as opções vão para o frango ou a pescada, às vezes", queixa-se.
As dificuldades, considera, não se limitam às famílias imigrantes. "Sofrem bastante", diz, referindo-se também aos portugueses. "Vamos para Lisboa, vemos muita gente a dormir na rua (…) É triste", diz, apontando os custos da botija de gás, que está "ao preço do ouro", da água e da luz, face aos salários e pensões que continuam baixos.
Ana Maria nasceu na ilha de Santiago, em Cabo Verde, há 70 anos. Também viúva, começou recentemente a recorrer ao apoio do centro, depois de ter ouvido falar das doações. A renda de 300 euros pesa no orçamento, que depende da pensão de reforma e da pensão de viuvez para atender às necessidades de seis pessoas, incluindo três filhos e dois netos.
O cabaz alimentar é, por isso, uma "boa" ajuda, afirma.
"A gente não pode comer a comida em condições, temos de comprar aquilo que dá. Com seis pessoas em casa dá para comprar alguma coisa? Dá para comprar massa, frango, as coisas mais baratas. Quando chegamos no fim do mês, paga-se a água, paga-se a luz, paga-se a renda, já ficamos sem nada para a casa", constata.
De vez em quando visita a família em Cabo Verde e, apesar de considerar que lá está melhor e que tudo é mais barato, não pensa em regressar. Os filhos também não querem voltar, preferindo ir apenas "para passar férias".
"Ficar lá não, já estamos mais habituados aqui", afirma.
Lena, também moradora do bairro e de origem cabo-verdiana, chegou a Portugal em 1973, vinda da ilha de Santiago. Diz que a vida está cada vez mais difícil, sobretudo devido ao preço dos alimentos, e chama a atenção para as famílias "a quem falta o que comer".
"Há dias fui comprar um quilo de cebola, estava a 1,69 euros. Assustei-me", desabafou.
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