"Falta política de património" em Portugal, alerta ICOMOS
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O presidente do ICOMOS Portugal, Orlando Sousa, considerou hoje que existe "muito trabalho" feito no país sobre os riscos para a conservação do património cultural, naturais e provocados pelo homem, mas são necessárias medidas práticas.
"Há muito trabalho feito, de facto, mas há muito trabalho para fazer e, sobretudo, há que operacionalizar", alertou o responsável, à margem de umas jornadas em Évora sobre o impacto das alterações climáticas nos monumentos.
Em declarações aos jornalistas, o presidente da representação nacional do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS) explicou que "há muitos estudos feitos" por cientistas, mas, agora, "é preciso juntar a investigação à operação".
"Isto é, medidas concretas a vários níveis nestas matérias", defendeu, argumentando que o património cultural não enfrenta apenas riscos decorrentes das alterações climáticas, mas também "riscos antrópicos", provocados pelo homem.
Segundo Orlando Sousa, estes perigos para os monumentos estão relacionados, por exemplo, com o tráfico de antiguidades ou a destruição deliberada de um edifício e de um bem cultural qualquer.
Outro fator que "preocupa muito" o ICOMOS prende-se com o risco sísmico, que "pode ser mais desastroso para o património do que uma inundação ou um aumento de temperatura".
Quando se pensa no terremoto de 1755, em Lisboa, não se pode olhar só para a capital, porque um sismo "estende-se por todo o território", pelo que "essas questões devem ser pensadas de forma global", avisou.
Para o presidente da representação nacional do ICOMOS, Portugal ainda não olhou com "alguma seriedade e preocupação" para os riscos que se colocam à conservação do património cultural.
"Há muita coisa feita, mas outro problema é que o trabalho é feito muito separadamente, de cientista para cientista", sem ser em equipa, argumentou, considerando ainda que "falta política de património" em Portugal.
Évora foi hoje 'palco' de umas jornadas no âmbito do projeto europeu HEPRESTONE, que desenvolve métodos e ferramentas para melhorar a proteção do património construído, através da monitorização, análise dos materiais e utilização de tecnologias digitais.
Especialistas portugueses e espanhóis participaram nesta reflexão conjunta sobre os desafios que as alterações climáticas colocam à conservação do património histórico e arqueológico.
O HEPRESTONE desenvolve-se nas regiões portuguesas do Alentejo e do Centro e na espanhola da Estremadura, onde estão a ser testadas abordagens adaptadas a diferentes monumentos e contextos patrimoniais.
A muralha romana de Évora é um desses casos de estudo e "constitui um exemplo concreto dos desafios que se colocam à conservação do património construído em pedra", indicou a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Alentejo, um dos parceiros do projeto.
De acordo com esta entidade, "a exposição prolongada às condições ambientais e os efeitos das alterações climáticas tornam necessário aprofundar o conhecimento sobre os materiais, os processos de degradação e os fatores que podem comprometer a conservação" das muralhas.
O vice-presidente para a Cultura na CCDR do Alentejo, Henrique Sim-Sim, realçou que o projeto "demonstra a importância da cooperação transfronteiriça, neste caso ao permitir testar soluções inovadoras para a conservação preventiva do património".