EUA. Noite histórica nas midterms: Viragem azul deixa Donald Trump "coxo"
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Após dois anos, o Senado e a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos da América voltam a pintar-se de azul numa noite considerada histórica. Vários bastiões republicanos passaram para a ala democrática o que poderá ter influência nas futuras decisões políticas dos Estados Unidos, dado que Donald Trump estará agora obrigado a enfrentar um Congresso controlado pela oposição durante os últimos dois anos do seu mandato presidencial.
O eleitorado americano ditou uma derrota histórica numa escala que não era vista, segundo o Washington Post, desde 1974. Os democratas tomam agora controlo de ambas as casas do Congresso – Senado e Câmara dos Representantes – com vitórias expressivas em locais onde não conquistavam cadeiras há décadas.
O atual presidente dos Estados Unidos já reagiu. O republicano acredita que a guerra no Irão foi "parcialmente" responsável pela derrota do seu partido nestas eleições e disse ainda crer que se o seu nome constasse nos boletins de voto, os resultados seriam bem diferentes.
As eleições intercalares ficam marcadas por mudanças políticas em vários estados, escolhas inéditas e um olhar diferente para o futuro. Vamos aos pontos altos da noite.
Câmara de Representantes com vitória clara
Os republicanos detinham a maioria desde 2024, com 220 membros (um dos quais independente), contra 215 democratas na Câmara dos Representantes. Mas, tal como acontece no Senado, as sondagens apontam para uma vitória "azul". E, neste caso, ainda mais clara.
Os dados obtidos até ao momento dão uma vitória clara aos democratas, com mais de duas dezenas de círculos anteriormente republicanos, incluindo alguns onde Trump tinha vencido as presidenciais de 2024 por margens superiores a 10 pontos percentuais, segundo a Associated Press.
Os democratas deverão alcançar na Câmara dos Representantes uma maioria de mais de 60 lugares - 248 para 187 republicanos - segundo dados ainda em atualização.
A nova maioria permitirá aos democratas controlar as comissões parlamentares, investigar a administração presidencial e bloquear iniciativas legislativas republicanas, enquanto o controlo do Senado lhes dará capacidade para travar nomeações presidenciais.
O novo líder da câmara baixa do Congresso dos Estados Unidos, o democrata Hakeem Jeffries, na senda dos resultados, prometeu acusar os responsáveis pelo que descreveu como "corrupção sem precedentes" no país.
"Vamos exigir responsabilidades àqueles que impuseram a este país uma corrupção sem precedentes", declarou.
Senado também vira azul
Segundo as sondagens registadas até ao momento, os democratas poderão retirar também o controlo do Senado aos republicanos, algo impensável há alguns meses. Os dados provisórios divulgados durante a madrugada indicam que os democratas já asseguraram pelo menos 54 lugares no Senado.
A conquista do Senado constituiu a maior surpresa da noite eleitoral, depois de os democratas retirarem aos republicanos pelo menos sete lugares, incluindo em estados tradicionalmente conservadores como Texas, Kansas, Carolina do Sul, Ohio e Iowa.
No Texas, o democrata James Talarico derrotou o republicano Ken Paxton, apoiado por Trump, tornando-se o primeiro candidato do seu partido a conquistar um lugar no Senado por aquele estado desde 1988.
No Kansas, Adam Hamilton derrotou o senador republicano Roger Marshall, garantindo a primeira eleição de um democrata para o Senado naquele estado desde 1932.
Na Carolina do Sul, Annie Andrews derrotou a republicana Darline Graham, conseguindo uma vitória que escapava aos democratas desde o século passado, enquanto no Ohio o antigo senador Sherrod Brown recuperou um lugar na câmara alta ao derrotar Jon Husted.
Na Carolina do Norte, o antigo governador Roy Cooper venceu Michael Whatley, apoiado pelo Presidente, e no Iowa o democrata Josh Turek derrotou Ashley Hinson.
No Maine, Susan Collins, uma das mais conhecidas senadoras republicanas e membro do Congresso desde 1997, perdeu perante o democrata Troy Jackson, embora o apuramento ainda não esteja concluído.
Apesar da maioria democrata já projetada no Senado, permanecem por decidir as disputas no Alasca e no Mississípi, que poderão ampliar a dimensão da vitória da oposição.
O líder dos democratas no Senado, Chuck Schumer, saudou uma vitória que considerou extraordinária e prometeu uma mudança nas prioridades políticas em Washington.
Reação de Trump
O Presidente norte-americano, Donald Trump, considerou que a guerra no Irão foi parcialmente responsável pela derrota do Partido Republicano nas eleições intercalares e felicitou os democratas, que conquistaram as duas câmaras do Congresso.
Trump afirmou que os democratas "fizeram um bom trabalho" e "lutaram bem". Porém, disse não entender estes resultados.
"Não tem nada que ver com o meu gabinete", defendeu Trump, argumentando que "havia uma certa atmosfera no ar" e que não deveria sentir-se culpado.
"Quase nunca o presidente em exercício, independentemente de ser bom ou mau, republicano ou democrata (...) consegue vencer" as eleições intercalares, referiu.
Escolhas inéditas. Fez-se história
As eleições intercalares ficam marcadas por algumas escolhas inéditas. No Michigan, por exemplo, Abdul El-Sayed tornou-se no primeiro muçulmano eleito para a câmara alta do Congresso norte-americano, declarando poder passar de "Inshallah" ["Se Deus quiser" em árabe] para "Alhamdulillah" ["Graças a Deus"].
Já Peggy Flanagan tornou-se na primeira senadora indígena na história dos Estados Unidos, ao vencer as eleições intercalares no Minnesota.
A Califórnia e o Texas, os dois estados mais populosos dos Estados Unidos, elegeram governadores latinos pela primeira vez na sua história, um marco do poder eleitoral da população latina, que pode vir a ser alargado na "onda azul" das intercalares.
Xavier Becerra foi eleito governador da Califórnia e Gina Hinojosa será a próxima governadora do Texas, ambos pelo partido democrata e com vitórias expressivas sobre os oponentes republicanos.
Georgia e Florida elegeram os primeiros governadores afroamericanos da história daqueles estados, uma democrata e um republicano.
O que dizem estes resultados?
As eleições intercalares norte-americanas ("midterms") ficaram novamente marcadas pelo habitual castigo do eleitorado à administração em funções.
Para Donald Trump e os republicanos poderá significar o fim do domínio absoluto nas instituições políticas.
Com a derrota republicana, Trump ver-se-á até ao fim do mandato, em 2028, no papel de presidente "lame duck" (literalmente "pato coxo"), incapaz de combater uma maioria hostil no Congresso.
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