Mais previsões: Meteorologia 25 dias

PUBLICIDADE

Espanha: Foco mudou de Ceuta para habitação e precipitou legislativas

...


                    Espanha: Foco mudou de Ceuta para habitação e precipitou legislativas
Espanha: Foco mudou de Ceuta para habitação e precipitou legislativas (Foto: Reprodução)

Estudos de opinião publicados nos últimos dias revelam que a habitação "tem um quadro mais favorável para a esquerda", nas palavras do politólogo e professor universitário Pablo Simón, autor de um desses estudos ("A habitação como fratura política", da Universidade Carlos III, de Madrid).

 

Já a imigração, "mais favorável" à direita, além de ser atualmente um dos temas centrais dos partidos conservadores e de extrema-direita, em Espanha e no resto da Europa, tinha ganhado especial protagonismo no país desde finais de julho, por causa da entrada de mais de 70.000 pessoas de forma ilegal em 24 horas na cidade, um enclave espanhol no norte de África, com fronteiras com Marrocos.

Além do episódio em si, juntaram-se críticas generalizadas ao Governo, de todas as sensibilidades políticas, pela gestão lenta e tardia do ocorrido e pela postura em relação a Marrocos, considerada subserviente.

O líder do Partido Socialista Espanhol (PSOE), Pedro Sánchez, é primeiro-ministro desde 2018 e, desgastado internamente por vários casos confirmados e suspeitos de corrupção de pessoas que lhe são próximas, por uma paralisia legislativa por depender de uma geringonça de oito partidos no parlamento que lhe impediu de apresentar uma única proposta de Orçamento do Estado desde 2022 ou pela atuação em Ceuta, vinha repetindo insistentemente nos últimos meses que a legislatura atual iria até ao fim, ou seja, meados de 2027.

Até que hoje de manhã anunciou a dissolução do parlamento e eleições antecipadas para 29 de novembro, depois de três partidos de direita terem 'chumbado', na sexta-feira, decretos com medidas para a habitação com que o Governo tinha avançado de forma urgente face à pressão de milhares de pessoas nas ruas desde o despejo, em 23 de setembro, de Maricarmen Abascal, uma idosa de 87 anos.

"Para fazer em profundidade as reformas pendentes, de que precisamos para reduzir os níveis de desigualdade, temos de nos mobilizar e temos que conseguir que o parlamento nos dote de uma maioria muito mais ampla, progressista, para dobrar as elites e conquistar novos direitos e continuar a transformar Espanha", disse hoje Sánchez, depois de realçar que Espanha é a economia europeia que mais cresce e mais emprego cria, mas reconhecer que há "ainda muitos problemas para resolver" no âmbito "das desigualdades, serviços públicos e acesso à habitação".

As análises de politólogos, analistas e meios de comunicação coincidem hoje em que Sánchez e o PSOE viram no tema da habitação "uma janela de oportunidade" quando todo o contexto parecia desfavorável para a esquerda, como revelam todas as sondagens, com as mais recentes a coincidirem em que o Partido Popular (PP, direita) e o Vox (extrema-direita) poderão chegar 50% dos votos.

Mas os analistas têm dúvidas sobre até que ponto o tema da habitação pode ser capitalizado por Sánchez e outros partidos de esquerda reunidos na plataforma Somar, após oito anos no Governo com um balanço considerado limitado ou mesmo falhado neste campo, que anunciou como prioritário, tendo criado até, na última legislatura, um Ministério da Habitação.

E isto apesar do argumento de que as iniciativas do Governo foram boicotadas pela direita e extrema-direita no parlamento e outras na aplicação, por competirem aos governos regionais, atualmente maioritariamente nas mãos do PP.

Em paralelo, a narrativa que usa o medo da possibilidade da extrema-direita chegar ao poder - que Sánchez voltou a usar hoje na declaração de convocatória das eleições - pode já não resultar em 2026 como funcionou em 2023, data das anteriores legislativas.

"Entre 2023 e 2026 há uma eternidade, como evidencia a reedição dos governos conservadores e extremistas [do PP e do Vox, em regiões autónomas] onde já governavam. Para uma parte da sociedade espanhola, a extrema-direita deixou de dar medo, para outra, está inclusivamente na moda", escreveu a politóloga Cristina Monge num artigo de opinião no jornal El Pais, no domingo.

"O apelo à habitação é o último simulacro. Sánchez antecipa as eleições com a legislatura morta, afogado pela corrupção e incapaz de governar, e escolhe a demonização do adversário e o conflito institucional como bandeiras", escreveu hoje, num editorial, o jornal El Mundo.

Já no editorial do El Pais, lê-se que as eleições servem para "desatar o nó" a que chegou Espanha: "paralisia parlamentar, com um Governo sem maioria e assombrado por processos judiciais, e uma oposição de direita e de extrema-direita que tem levado o Congresso a níveis de tensão sem precedentes".

No mesmo jornal, a professora de Teoria Política na Universidade Autónoma de Madrid, Máriam Martínez-Bascuñán, lembra hoje o que recorrentemente se lê nos perfis de Pedro Sánchez: "O seu olfato consiste em ler o momento antes de ninguém e não temer o risco", transformando "uma derrota na aposta que melhor conhece, a de arriscar tudo quando os adversários acreditavam que estava encurralado."

Governo de Espanha vai voltar a aprovar decretos para a habitação

O Governo de Espanha vai voltar a aprovar na terça-feira as medidas para a habitação rejeitadas pelo parlamento, que fica dissolvido hoje com a marcação de eleições antecipadas, disse o executivo.

Lusa | 11:24 - 05/10/2026