Escritora Ana Maria Gonçalves critica violência policial e racismo no Brasil
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A escritora Ana Maria Gonçalves afirmou hoje que ser mãe negra no Brasil é atualmente muito violento para as mulheres que, por causa da violência policial ou do racismo, não sabem se, quando saem, os filhos voltam a casa.
"Ser mãe negra no Brasil, hoje, é um processo extremamente violento", afirmou a escritora brasileira e autora de "Um defeito de cor", no festival literário Fólio, em Óbidos, onde denunciou que no seu país estas mães "não dormem, porque não sabem se o filho quando sai de casa, se vai encontrar alguma batida policial, algum enquadramento feito pelo racismo, e se vão receber esse filho de volta em casa".
Numa conversa com Walter Hugo Mãe, a escritora voltou ao tempo da escravidão através da história da obra "Um defeito de cor" - que relata a procura de uma mãe pelo filho que foi vendido como escravo -, para sublinhar que o livro se mantém contemporâneo.
"Ser uma mãe negra num país em que se passa pela escravidão e que depois se continua ainda sendo tocado e moldado pelo racismo, é um processo de violência extremo que essas mulheres vivem o tempo inteiro", afirmou.
A escravidão "ainda é um período da história que liga os nossos dois países [Portugal e Brasil], que ainda falta ser entendida e compreendida", frisou, lembrando a importância de encarar essa relação ao passado quer "na forma e como é que ela ainda atua na sociedade hoje".
O livro, de cerca de mil páginas, que Ana Maria Gonçalves escreveu e reescreveu ao longo de cinco anos, vai na 52ª edição e, segundo a partilha feita hoje pela autora, continua a contribuir para a reflexão em torno deste período da história.
O livro foi publicado no Brasil em 2006.
"Há alguns anos recebi um bilhete extremamente importante", contou a escritora, revelando tratar-se de "um bilhete do Presidente Lula [da Silva]".
No bilhete, prosseguiu a escritora, Lula da Silva afirmou ter lido o livro quando se encontrava na prisão e referiu que o tinha feito "durante seis dias e que durante seis dias a literatura o tirou de lá de dentro".
De acordo com a escritora, o Presidente terá ainda dito que "se ele tivesse lido esse livro e vários outros, de uma lista de 40 livros que leu enquanto estava preso, teria feito dois governos diferentes, porque teve um entendimento diferente do Brasil".
"É isso que a literatura faz pela gente. É isso que a cultura, que a arte pode fazer pelos povos", disse Ana Maria Gonçalves no Fólio, saudando a presença do Presidente da República de Portugal, António José Seguro, na plateia do festival.
"É extremamente importante a gente eleger, a gente ter do nosso lado governantes que entendam esse poder e que frequentem e que promovam a literatura dos países", afirmou, secundada por Walter Hugo Mãe, que saudou também a presença do chefe de Estado e manifestou a convicção de que "a literatura é política, a cultura é política, a cidadania é política".
"Não é possível conceber a consciência, a lucidez adulta que se espera de todos nós, sem convicções políticas e sem esperar dos políticos o melhor", vincou o escritor, solidarizando-se com as afirmações de Ana Maria Gonçalves em relação a Lula da Silva.
"De facto é inconcebível termos, em qualquer presidência, alguém que não enfrente a cultura, que não tenha coragem para o embate da complexidade que a cultura traz e, por isso, não precisamos de cobardes nem de imbecis, precisamos de pessoas que estejam sempre em processo de aprendizagem, que estejam sempre num processo de encontro com os outros que são diferentes e que têm algo para nos acrescentar", prosseguiu.
Naquela que foi a última mesa de autores do Fólio, os dois escritores partilharam com os eleitores os que os motiva na escrita das suas obras, com Walter Hugo Mãe a considerar que o livro de Ana Maria Gonçalves não tem paralelo com autores portugueses e que "parece mais parente de um Dostoevsky, ou de um Tolstói, ou de um Vitor Hugo, de um Marcel Proust".
A obra, e as que se seguiram, fizeram da autora a primeira mulher negra a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras.
Ao fim de 128 anos de existência deste órgão, a escritora, defende que é preciso refletir sobre a supremacia de "brancos, homens e heteros" numa academia de letras.
Desde lado do oceano, Walter Hugo Mãe também pediu reflexão sobre o facto da obra "que tem sido considerado o romance mais importante do século XXI brasileiro" ter demorado 20 anos a chegar a Portugal.
Na sua 11.ª edição, o Fólio — Festival Literário Internacional de Óbidos, que hoje termina, teve como tema central "Para além da pele".