Eleições: Comunidade portuguesa de San Diego entre esperança e ceticismo
...
A poucos dias das eleições intercalares, que vão decidir o controlo do Congresso nos Estados Unidos, a comunidade portuguesa de San Diego, no sul da Califórnia, oscila entre o otimismo sobre melhoria da economia e o ceticismo pelas mudanças.
O partido democrata deverá conseguir a maioria na Câmara dos Representantes e as sondagens indicam que pode conquistar também o Senado, o que lhe dará a oportunidade de abrandar a execução da agenda política do Presidente republicano, Donald Trump.
No entanto, isso pode não ser suficiente para ter efeito nas matérias que mais preocupam os luso-americanos, como o preço dos combustíveis e o aumento do custo de vida.
"Com as ideias que temos e quem está à frente do mandato federal dos Estados Unidos, vai ser muito difícil que haja uma grande mudança", disse à Lusa Idalmiro da Rosa, cônsul honorário de Portugal em San Diego e uma das personalidades mais proeminentes da comunidade.
O que muitos querem ver é a estabilização do preço dos combustíveis, o que está associado à resolução do conflito no Irão. João da Silva Nunes, dono do mercado português "O Prego", tem esperança que alguma coisa mude para melhor com as eleições, não apenas no Congresso, mas também na Califórnia, que vai escolher um novo governador.
"Vamos ver quais as leis que vão instalar para ver se melhora um bocadinho a Califórnia, se baixa um bocadinho o preço das coisas, para ver se melhora o comércio e também, claro, investir nos pequenos negócios", apontou.
Mas Kevin Alameda, lusodescendente à frente da empresa Clipper Oil em San Diego, sublinhou que as intercalares nunca animam tanto os eleitores quanto as presidenciais.
"Pelo que tenho ouvido de amigos e em conversas, as pessoas estão um pouco deprimidas com a situação política nos Estados Unidos", explicou. "Não me parece que gostem de ver as notícias e seguir a política muito de perto neste momento, porque as coisas estão muito polarizadas", continuou. "Por minha parte, antecipo uma participação eleitoral mais baixa que o habitual".
Annette Balelo, presidente do salão português de San Diego – União Portuguesa Sociedade do Espírito Santo, ou U.P.S.E.S. – confirmou que a discussão sobre as eleições tem sido mínima.
"Penso que muita gente fala de como isto afeta as suas viagens a Portugal ou comprar uma Super Bock", disse à Lusa. "Não creio que, politicamente, estejamos a ter muitas conversas deste tipo, embora sejam conversas importantes", salientou. "Acho que, na sua maioria, as pessoas só querem participar no que se passa aqui".
A lusodescendente lembrou, por outro lado, que algumas medidas da Casa Branca beneficiaram a indústria do atum, incluindo o corte de regulações federais e o incentivo ao consumo de peixe apanhado nos Estados Unidos.
As várias comunidades portuguesas identificam-se, na esmagadora maioria, com o partido republicano, embora a Califórnia seja um estado que vota globalmente mais no partido democrata.
Isso não deverá mudar nas intercalares, apesar de haver algum descontentamento com medidas tomadas pelo executivo de Donald Trump nos últimos dois anos.
"Não é que eu estou contra os republicanos, nada disso, ou que sou democrata", disse João da Silva Nunes, que considera ter uma mentalidade aberta para votar nos candidatos de que gosta independentemente do partido.
"Mas eu acho que de momento não podemos estar à vontade deles, porque só há uma pessoa que faz as decisões", afirmou, referindo-se ao presidente Trump.
João da Silva Nunes referiu que "a população ainda tem o poder" e que se a maioria vê que o que Trump "está a fazer agora não está correto" é preciso "tentar mudar".
Kenny Alameda, que fundou a Clipper Oil em 1985, também mencionou a polémica em torno do Serviço de Imigração e Fronteiras (ICE, na sigla inglesa) como uma das questões relevantes nestas eleições.
"Muitas pessoas nos Estados Unidos afastaram-se dos republicanos porque acham que fomos demasiado para a direita e fizemos coisas com o ICE e por aí", apontou.
Ainda assim, há um tom de esperança, solidariedade e otimismo de que as coisas melhorem no próximo ano.
"Há problemas no mundo lá fora, a gasolina está absurdamente cara, tal como o preço dos alimentos, mas vamos unir-nos e fazer as coisas juntos, vamos aliviar o fardo das pessoas", frisou Annette Balelo. "Acho que a nossa comunidade tem muito mais esta mentalidade de nos ajudarmos uns aos outros e não há muito isso de 'só para mim'".
As eleições intercalares decorrem em 03 de novembro.
Leia Também: Eleitores norte-americanos em Portugal estão "muito empenhados"