"É fácil julgar quando não temos de escolher entre pagar renda ou comida"
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A violência policial contra os manifestantes que se encontravam no centro de Lisboa e do Porto, na madrugada de sábado para a domingo, em protesto pelo direito à habitação continua a ser um dos temas do momento.
Depois de reações de figuras públicas como Nuno Markl, Rita Ferro Rodrigues, Catarina Furtado ou os irmãos raposo, Ricardo e Miguel, também os criadores de conteúdo digital têm vindo a pronunciar-se.
Rebeca Caldeira assumiu custar-lhe muito ver o que aconteceu na noite de sábado para domingo.
"Custa-me muito ver o que se passou esta noite. Mas custa-me ainda mais ver pessoas, confortavelmente sentadas em casa, a transformar uma questão de dignidade humana numa discussão de esquerda ou direita. E digo isto sabendo perfeitamente que também sou uma privilegiada.
A minha avó nasceu em 1928. Ficou em casa a cuidar dos filhos, como tantas mulheres daquela geração. Acabou por ser abandonada pelo marido e ficou sozinha a criar três filhos. Felizmente, ele deixou-lhe a casa paga, porque a minha avó recebia uma pensão miserável de 200 ou 300 euros e recorria todas as semanas ao Banco Alimentar. Imaginem se ainda tivesse uma renda para pagar. E é também por histórias como a dela que me custa ver tanta gente a romantizar os tempos de antes do 25 de Abril", pode ler-se na partilha.
A criadora de conteúdo digital contou que já esteve naquela manifestação e viu de perto "o ambiente que lá se vive". "Não digo que não existam pessoas com comportamentos condenáveis, como existem em qualquer contexto. E quem comete crimes deve responder por eles. Mas não podemos pegar nas atitudes de alguns e descredibilizar milhares de pessoas que estão ali pacificamente a lutar por um direito básico."
Rebeca Caldeira apelou ainda a que não se normalize "imagens de pessoas a serem agredidas, incluindo quando já estão no chão".
"A atuação policial tem de ser escrutinada e qualquer uso excessivo da força tem de ter consequências. O que mais me entristece é ver tanta gente preocupada em condenar quem protesta e tão pouca preocupada em encontrar soluções para aquilo que levou estas pessoas à rua. É muito fácil julgar o desespero dos outros quando nunca tivemos de escolher entre pagar uma renda ou pôr comida na mesa. Não devia ser uma questão de esquerda ou direita. Devia ser uma questão de humanidade. E, acima de tudo, gostava de ouvir mais respostas concretas de quem nos governa."
"Respeitar a autoridade não é deixar de a questionar"
Helena Coelho juntou-se igualmente à onda de indignação perante a carga policial que os manifestantes pela habitação sofreram.
"Que a discussão sobre o que aconteceu não nos faça esquecer o que levou tantas pessoas à rua! Defender direitos não é ignorar deveres. Respeitar a autoridade não é deixar de a questionar.
Acima de tudo, que não nos falte empatia, liberdade para nos manifestarmos e coragem para exigir respostas. A quem continua a lutar, pacificamente, por direitos que são de todos: obrigada", disse a criadora de conteúdo digital.
Às suas palavras, Helena Coelho juntou um vídeo onde fala sobre o tema. Veja as imagens na galeria.