De Adamuz a Toledo: Dois acidentes ferroviários em 9 meses (e 110 mortos)
...
A alta velocidade ferroviária em Espanha registou este ano dois acidentes graves, o de hoje em Urda (Toledo), com pelo menos 64 mortos, e o de 18 de janeiro em Adamuz (Córdova), com 46 mortos.
O acidente de hoje envolveu dois comboios, um da Renfe e outro da Iryo, e ocorreu pouco antes das 9h00 locais (8h00 em Lisboa) perto da estação de Urda, na província de Toledo, na linha Madrid-Sevilha.
Mais de 540 pessoas viajavam nos dois comboios de alta velocidade envolvidos na colisão e as autoridades admitiram que o número de vítimas mortais pode aumentar.
"Estamos a falar de 64 mortos", dos quais 40 no comboio da Iryo e 24 no da Renfe, precisou o presidente regional, Emiliano García-Page, durante uma conferência de imprensa.
"Este número provavelmente ainda vai aumentar. É enorme, é monstruoso", acrescentou, citado pela agência francesa AFP.
O acidente de hoje já ultrapassa o de 18 de janeiro.
Nesse dia, um comboio da Iryo proveniente de Málaga descarrilou nos desvios de Adamuz e invadiu a via adjacente, onde circulava um Alvia que tinha partido de Madrid para Huelva, que também descarrilou após a colisão.
Com um balanço de 46 mortos e 152 feridos, o acidente de Adamuz continua a ser investigado pela autoridade ferroviária, de acordo com a agência espanhola EP.
Inaugurada em 1992, Espanha possui a rede ferroviária de alta velocidade mais longa da Europa, com 3.993 quilómetros, dos quais 3.225 especificamente reservados a velocidades superiores a 250 quilómetros por hora.
Desde a abertura à concorrência, no final de 2020, três companhias operam comboios de alta velocidade no país, incluindo a Renfe (Red Nacional de los Ferrocarriles Españoles), a principal empresa ferroviária pública espanhola.
Outra das operadoras é a Iryo, controlada pela italiana Ferrovie dello Stato Italiane (FS, empresa-mãe da Trenitalia, com 51%) e por parceiros espanhóis como a Air Nostrum (25%) e a Globalvia (24%).
A terceira é a Ouigo España, filial da francesa SNCF.
A rede está estruturada em torno de linhas que convergem para a capital, Madrid, e para a sua estação de Atocha, relativamente às ligações provenientes do sul e do leste, e para Madrid-Chamartín no que toca ao noroeste.
Conta ainda com linhas transversais, como a que liga a Catalunha à Andaluzia de forma direta.
A Renfe mantém uma quota de mercado superior a 60%, dividindo a Iryo e a Ouigo os restantes cerca de 40%, segundo o especialista independente em transportes na Europa Frédéric de Kemmeter, citado pela AFP.
A abertura à concorrência fez disparar o número de passageiros para perto de 40 milhões em 2024, provocando uma intensidade de utilização que resultou no desgaste acelerado do material circulante e da infraestrutura, segundo especialistas.
Além dos acidentes deste ano em Urda e em Adamuz, a lista recente inclui o descarrilamento de um comboio da Avia em Angrois (A Corunha), em 24 de julho de 2013, que causou 80 mortos e mais de 140 feridos.
O acidente ferroviário com mais mortos em Espanha foi registado em 03 de janeiro de 1944, embora o número exato nunca tenha sido divulgado, segundo a agência espanhola EFE.
Ocorreu à saída da estação leonesa de Torre del Bierzo, quando o correio expresso 421 Madrid-Galiza, repleto de passageiros, colidiu com uma locomotiva.
O regime franquista silenciou inicialmente o desastre e, embora o número oficial facultado posteriormente pela Renfe tenha sido de 78 mortos e 75 feridos, estima-se que tenham morrido centenas de pessoas, cerca de 500, segundo diversas fontes.
Em julho de 1972, a colisão da automotora Cádiz-Sevilha com um comboio expresso entre as estações de El Cuervo e Lebrija resultou em 79 mortos.