Cristina Clara mistura tradições musicais em novo álbum "Entretela"
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O novo álbum de Cristina Clara, "Entretela", disponível nas plataformas digitais a partir de sexta-feira, conjuga diferentes ritmos e tradições musicais, do fado à morna, passando pela música tradicional portuguesa e o 'batuku' cabo-verdiano.
O álbum abre com "Fado Rosa Maria" (João Bastos/António Melo), que Hermínia Silva interpreta no filme "O Costa do Castelo" (1943).
"É uma abertura de portas", disse Cristina Clara em entrevista à agência Lusa: "Este trabalho reflete bastante o que é a minha vivência enquanto artista de música desde que comecei, mas particularmente, nos últimos anos, porque, de facto - e por isso é que eu digo que o fado é uma abertura de portas -, o fado foi talvez o primeiro género musical que cantei de forma profissional, embora a música sempre estivesse na minha vida de várias formas. E, entretanto, nunca me circunscrevi a um só meio. Em Lisboa circulo por vários ambientes e sou bastante curiosa. Hoje em dia, viver em Lisboa de olhos abertos, é realmente conhecer músicos de vários lugares do mundo".
A cantora destacou no "Fado Rosa Maria" uma estrofe com qual se identifica, e introduziu a voz da Hermínia, recolhida nos Arquivos RTP, que transmite "uma certa ironia".
"Aquele refrão que diz 'E é por isso que eu insisto/ e não desisto/ E hei de cantar sem viola, sem guitarra/ Como uma cigarra até rebentar'; que é no fundo a minha maneira de estar na música, e com aquelas frase, com certa ironia, poupo trabalho aos críticos".
Referindo-se às várias inspirações musicais, Cristina Clara afirmou: "Como artista interessa-me muito conhecer outros artistas, outros ritmos que não apenas os nossos, perceber as afinidades que existem entre as várias linguagens tradicionais, sobretudo estas de expressão dita portuguesa, como as do Brasil e de Cabo Verde, que são as presenças mais fortes neste trabalho. Portanto, este disco é um reflexo daquilo que tem sido a minha vivência. [O contrário] seria fechar-me num só género e não seria fiel àquilo que faço".
Cristina Clara salientou também o convívio com os músicos da sua banda que, "sendo de vários lugares, também aportam essa riqueza multicultural".
Sobre o álbum - que será editado em CD depois do espetáculo de apresentação no Teatro S. Luiz, em Lisboa, em 03 de novembro -, disse ter imaginado que "poderia ser um pouco uma viagem por Lisboa" através dos seus olhos, "sem querer ser pretensiosa".
"Um pouco em cada faixa entramos num ambiente diferente da nossa cidade, ou até do nosso país. A minha vivência como música tem sido predominantemente em Lisboa. Portanto, seria como visitar Lisboa através de um ambiente musical, dos meios tradicionais, sobretudo".
Outro tema que recria é "Cravos de Papel" (António de Sousa Freitas/Alain Oulman), uma criação de Amália Rodrigues.
Neste, Cristina Clara aponta "uma letra genial, daquelas letras que parecem simples mas que são cheias de veneno, de uma malícia muito interessante nas canções tradicionais ou de inspiração tradicional".
"Adoro a letra de 'Cravos de Papel', e adoro as composições do Alain Oulman que, na altura, foi imensamente criticado, porque não era português, não era do fado, por trazer umas composições muito complexas para o fado", acrescentou, referindo-se a Amália como "um símbolo que vai além de géneros, uma pessoa que também não se limitou a um só género musical".
Neste tema a intérprete chamou à atenção para "uma "brincadeira" de a nota musical sol "ser com guitarra elétrica, em vez da guitarra portuguesa", de maneira a "trazer essa malícia também para o arranjo, malícia que já está na letra e também no arranjo".
O álbum é composto por 15 temas, entre eles duas notas poéticas que "são declarações" de sua autoria: "Entretela" e "Aponta se puderes".
Das 13 canções, duas têm letra de Cristina Clara, "Bonança" para o Fado Alexandrino de Armandinho, e "A História do Nosso Amor" para o Fado Perseguição, de Carlos da Maia. A cantora assina ainda uma musica com Pedro Loch, "Ter o Tejo por Rival" (Maria do Rosário Pedreira). Entre os outros autores, estão Edu Mundo, Ana Sofia Paiva e Amélia Muge.
Cristina Clara partilha a interpretação de cinco tema, "Lilaré dos Cinco Sentidos", do Cancioneiro Popular Português, com a Roda de Percussão Ibérica, "Intermitentemente" com Sérgio Godinho, o 'batuku' "Primeiru Bes" com Rolando Semedo, a morna "Bus Odjus" com Tito Paris, e "Bonança" com António Zambujo.
No tema de Amélia Muge, "Águas Santas", foram introduzidas vozes de cabo-verdianos sobre a riqueza piscícola do arquipélago, e de como ela não fica no país, retiradas da reportagem da RTP África, "Nha Terra, Nha Cretcheu".
Amélia Muge compôs o tema quando esteve em Cabo Verde.
"Relacionei logo com [essa reportagem] sobre pesca e questões do mar e exploração de recursos da natureza, que muitas vezes são explorados por outros e o país [de origem] acaba por se manter na pobreza. Então achei que era muito interessante conjugar esta ideia de 'Águas Santas'", defendeu.
Cristina Clara considera que a música que faz não se pode alhear de uma preocupação social e da situação no mundo, pois é algo "muito sentido na música dita tradicional ou popular, que vive muito próxima das pessoas". "É uma música que se faz pouco em estúdios e muito na rua e nos cafés", acrescentou.
A intérprete citou uma tertúlia informal de que faz parte, com músicos, gente do teatro, poetas, e à qual se referiu "despretensiosamente" como "um novo Orfeu Rebelde"; uma tertúlia que privilegia "ambientes populares, onde se encontram pessoas vindas dos lugares e dos meios sociais mais diversos, muito ricos", como Alfama. "Ainda hoje os lugares perto do mar, são muito lugares de chegada", chegam "pessoas de todos os lugares, das mais diversas classes", que dão origem a conversas pela noite fora. E a noite "é uma libertação que as pessoas têm a partir de certa hora para falar das suas próprias vidas, das suas dificuldades".
Este ambiente também acabou por pesar nas escolhas do álbum. "Os convidados são pessoas que sinto que se identificam com este tipo de propósito", disse Cristina Clara, "um disco que procura esse olhar sobre o que são não só as canções, mas o que as habita, as histórias que estão por trás".
Depois da apresentação no Teatro S. Luiz, em Lisboa, no dia 3 de novembro, "Entretela" será apresentado na terra natal da intérprete, Riba de Ave, no distrito de Braga, no Teatro Narciso Ferreira, no dia 28 de novembro.
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