Corvo, "a ilha que fica às escuras" no outono para salvar aves marinhas
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Uma vez por ano, o Corvo, a ilha mais pequena do arquipélago dos Açores, "fica às escuras" para salvar as crias dos cagarros, uma ave marinha endémica do Oceano Atlântico.
O "apagão" solidário foi, este fim de semana, destaque no The Guardian, mas desde 2019 que os cerca de 450 habitantes da ilha açoriana abraçam a causa.
No outono, durante cinco noites, não há iluminação pública no Corvo para "combater os efeitos desastrosos da luz artificial" nos voos das crias dos cagarros em direção ao oceano.
Segundo o jornal britânico, tudo começou em 1991, quando a comunidade se deparou com "um enorme número" de exemplares juvenis da ave marítima mortos.
É nesta altura do ano que as crias, após três meses de ninho, se aventuram no seu primeiro voo sobre o oceano. Como não têm GPS, os cagarros orientam-se pelas estrelas, o que é um problema quando há luz artificial no seu caminho.
Desorientados, muitas vezes chocam contra postes e paredes e acabam assustados, feridos e, no pior dos casos, mortos.
Para evitar a tragédia, os moradores do Corvo começaram a resgatar os animais acidentados, o que inspirou outras comunidades e levou o governo açoriano a lançar, em 1995, a campanha SOS Cagarro, para incluir as outras oito ilhas do arquipélago no movimento.
Nos anos seguintes, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) juntou-se ao projeto, ajudando-o a crescer. Hoje é reconhecido internacionalmente.
Numa viagem ao Corvo, em junho de 2024, o fotojornalista Andrea Zanenga descobriu a iniciativa e decidiu que tinha de voltar a esta ilha para o documentar. As fotografias, que o profissional partilhou também nas suas redes sociais, são impressionantes e mostram a mobilização da ilha em volta dos cagarros.
"Para mim, a mensagem desta história é que há esperança, principalmente quando envolvemos as gerações futuras e as ensinamos a cuidar do nosso planeta e sobre a beleza do mesmo", escreveu o jornalista, que acompanhou a iniciativa durante dois anos e lançou mesmo uma exposição fotográfica intitulada "The Second First Flight" ("O Segundo Primeiro Voo", em português).
"Até hoje, o Corvo continua a ser a única ilha que realiza um apagão total da iluminação pública para ajudar as aves marinhas a encontrarem o caminho até ao oceano, sem interferência de luzes artificiais", lembrou.
"A ilha mergulha na escuridão e as estrelas podem ser vistas claramente. Os pássaros iniciam as suas jornadas, na esperança de encontrar o caminho para o oceano, enquanto os habitantes percorrem a Vila do Corvo, a única vila da ilha, para encontrar e resgatar qualquer pássaro que tenha caído", evidenciou ainda no The Guardian.
Os cagarros resgatados são, posteriormente, colocados em caixas de papelão, durante a noite, para recuperarem. No dia seguinte, são soltos num dos penhascos da ilha, próximo do oceano. Assim têm uma segunda oportunidade para chegar à água, o seu novo lar.
De acordo com a SOS Cagarro, 30 mil filhotes foram resgatados desde 2015 nos Açores, 6 mil deles só no Corvo. Este esforço coletivo, como salientou Andrea Zanenga, é "um exemplo poderoso de como a redução da poluição luminosa pode restaurar o equilíbrio ecológico" e demonstra que "pequenas mudanças podem afetar significativamente a biodiversidade".
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