Ceuta: Secretas espanholas dizem que Marrocos sabia de entrada em massa
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Os serviços de informações espanhóis dizem que as autoridades marroquinas eram "plenamente conscientes" de que se preparava uma entrada em massa em Ceuta no final de julho e tiveram uma atuação "muito irregular na prevenção e controlo da crise".
As autoridades de Marrocos conheciam "com detalhe" as convocatórias que circulavam nas redes sociais, e que tinham "um grande seguimento", para uma entrada em massa em Ceuta coincidindo com a Festa do Trono, o feriado marroquino de 31 de julho cujas celebrações oficiais, este ano, numa localidade a cerca de 25 quilómetros da cidade espanhola, diz o Centro Nacional de Inteligência (CNI) de Espanha, num relatório conhecido hoje.
O documento foi elaborado e enviado à juíza da Audiência Nacional que está a investigar o ocorrido em Ceuta em 30 e 31 julho, quando mais de 70.000 pessoas entraram de forma ilegal em 24 horas no enclave espanhol no norte de África.
"Eram plenamente conscientes do que se produziria esse fluxo" de pessoas e "absolutamente conhecedoras de que se estava a gerar uma situação anómala em termos de tentativas de entradas irregulares" em Ceuta, escrevem as secretas espanholas no relatório entregue à justiça e citado por vários meios de comunicação social de Espanha.
O CNI diz que, além disso, os próprios serviços de informações espanhóis enviaram avisos, em 29 de julho, aos serviços congéneres de Marrocos, alertando para os grupos de Facebook e WhatsApp em que se preparava a entrada em Ceuta, com a indicação de que apontavam para as 20:00 de 30 de julho.
A avalanche de pessoas na fronteira de Ceuta deu-se a partir das 11:00 de 30 de julho.
O CNI refere que nos dias prévios e até ao 29 de julho houve "certa proatividade na interceção" de grupos de pessoas que tentavam passar para Ceuta por parte das forças marroquinas, mas depois o dispositivo mostrou-se insuficiente, além de "uma atitude de passividade" que levou ao descontrolo da situação.
Marrocos só começou a aplicar medidas mais contundentes de controlo depois do pico de entradas, segundo o relatório.
"Considera-se que uma das razões para esta mobilização insuficiente se deve ao facto de as autoridades marroquinas terem decidido dar prioridade à garantia da segurança do desenrolar das celebrações da Festa do Trono na vizinha localidade marroquina de Rincón, uma vez que o rei Mohamed VI se encontrava presente no palácio dessa localidade, onde decorriam as cerimónias", lê-se no documento do CNI.
As autoridades marroquinas mostraram assim uma atuação "muito irregular na prevenção e controlo da crise", dizem os serviços de informações espanhóis.
O CNI aponta, por outro lado, que elementos dos serviços secretos espanhóis e o chefe de gabinete da Delegação do Governo de Espanha em Ceuta mantiveram comunicações sobre a possibilidade de uma entrada em massa de pessoas na cidade no final de julho.
Em 09 de setembro, documentos desclassificados pelo Governo espanhol tinham já revelado que os serviços de informações alertaram, em 29 de julho, Marrocos e a delegação do executivo de Espanha em Ceuta para "várias convocatórias para levar a cabo entradas" na cidade em 30 de julho, às 20:00, em grupos nas redes sociais com 180.000 pessoas.
Por outro lado, em 02 de setembro, vários 'media' espanhóis divulgaram também um relatório policial que descreve o ocorrido em Ceuta em julho como uma ação "planeada" que contou com "total permissividade" e até apoio de elementos das forças de segurança de Marrocos.
Este documento, elaborado por uma unidade de informações da polícia espanhola, foi igualmente enviado na segunda-feira à juíza que está a investigar a entrada de dezenas de milhares de pessoas em Ceuta em 30 e 31 de julho de forma ilegal.