Ativistas pró-Palestina são "radicais religiosos" que atuam como cruzados
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O historiador britânico Simon Sebag Montefiore encara os ativistas pró-Palestina como "radicais religiosos" e "descendentes diretos dos cruzados", que não se apercebem de que na base dos seus protestos está a História e a Terra Santa.
Em entrevista à agência Lusa em Lisboa, por ocasião do lançamento do seu novo livro, "O Caldeirão – A formação do atual Médio Oriente, 1900-2026", editado pela Planeta, o historiador regressa à sua teoria de que esta região gera um sentimento de propriedade no Ocidente devido à sua cultura judaica-cristã, mas também de repugnância e culpa em relação a Israel por ser visto como um último império.
Entretanto, vieram os ataques liderados pelos islamitas do Hamas, em 07 de outubro de 2023 em Israel, onde fizeram cerca de 1.200 mortos e 251 reféns, e a guerra na Faixa de Gaza, que adicionou mais 74 mil vítimas nos últimos três anos, além da expansão dos confrontos a outras frentes de conflito, incluindo a Cisjordânia, Líbano e Irão.
"O número de vítimas é surpreendentemente elevado, brutal e trágico. E é justo que nos preocupemos com eles e que nos envolvamos nesta questão. Mas, da mesma forma, o envolvimento moral do Ocidente na Terra Santa é um fenómeno específico e diferente", adverte o autor 'best-seller' traduzido em 48 línguas e que adquiriu recentemente nacionalidade portuguesa por via da sua ascendência sefardita.
Como exemplo, Montefiore compara a perceção dos acontecimentos no território visto como Terra Santa e a repressão dos protestos civis no Irão no início do ano, pouco antes da ofensiva israelo-americana contra a República Islâmica.
"Cerca de 40.000 civis, todos eles 100% inocentes, foram mortos pelo regime [de Teerão]. E praticamente não houve cobertura mediática no Ocidente", comenta o autor, frisando uma diferença no tratamento de dois acontecimentos em grande escala e "entre civis mortos palestinianos e civis mortos iranianos".
Para o historiado formado pela Universidade de Cambridge, "passa-se algo na atitude do Ocidente" em relação ao Médio Oriente e "é uma questão de ética e não de História, porque um acontecimento é alvo de protestos em massa e o outro não suscita nada".
A atenção ao Médio Oriente, avalia, "deve-se ao facto de o movimento ativista ser, na essência, um movimento religioso", e também "uma histeria moral que, na verdade, só se preocupa com o que acontece na Terra Santa – e isso deve-se à História, mesmo que eles não o saibam".
Simon Sebag Montefiore considera que "os ativistas do movimento anticolonialista e anti-Israel, consideram-se radicais seculares", mas trata-se de "radicais religiosos" numa cruzada.
"Eles são os descendentes e sucessores diretos dos cavaleiros cruzados, dos puritanos, dos missionários brancos da era vitoriana e dos imperialistas do período eduardiano e da Primeira Guerra Mundial sem sequer se aperceberem disso", afirma, reforçando que "pensam que são o oposto".
O autor de "O Caldeirão" recorda que, depois do 07 de Outubro, achou que "era apenas uma questão de tempo até que estas pessoas atacassem Israel", adicionando a defesa da intervenção militar do Ocidente no Médio Oriente, o que agora "acontece frequentemente" e é "um desenvolvimento extraordinário para um movimento anticolonialista".
O historiador também recomenda "muita cautela" no uso do termo genocídio, que "é bastante sensível", para a atuação das autoridades israelitas na Palestina, apesar da conclusão nesse sentido de um painel de peritos independentes da ONU e de o atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, ser procurado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra e contra a humanidade.
"No livro, escrevo sobre o genocídio dos arménios, dos cristãos maronitas, dos gregos pônticos e outros - os yazidis, os curdos e, claro, o Holocausto. Mas é preciso ter muito cuidado para não utilizar a palavra genocídio simplesmente para descrever uma guerra feroz em que são mortos civis, que foi o que aconteceu em Gaza", sustenta.
No final, e no que respeita à História, Montefiore coloca-se no grupo que não considera que os acontecimentos no enclave palestiniano "se aproximem, nem de longe, de um genocídio", referindo que mesmo governos ocidentais, como o britânico ou o francês, "têm a mesma posição e é correta".
Ao mesmo tempo, o autor de 61 anos assume-se como defensor da autodeterminação da Palestina e acredita que a criação de entidades representativas, tanto para palestinianos como para os israelitas, é uma chave essencial para o "caldeirão" do Médio Oriente.
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