Aniversário era afinal festival neonazi (e PSP não foi): O que se sabe
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No fim de semana teve lugar na Póvoa de Varzim um festival neonazi que foi organizado como uma festa de aniversário. Pelo menos foi dessa forma que a organização do evento contratou o espaço onde o realizou, enganando não só a Associação Cultural e Recreativa da Matriz como a autarquia.
Quando a associação soube do que ia acontecer, pediu aos neonazis que saíssem, mas as instruções "não foram acatadas" e os dois dias do festival acabaram mesmo por realizar-se. Isto, apesar de a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim ter acabado por revogar a licença de ruído e ter comunicado isso mesmo à Polícia de Segurança Pública (PSP).
Esta quarta-feira, o jornal Expresso revela que a PSP não esteve no local porque não recebeu queixas diretas de problemas de segurança e tinha os meios concentrados nos festejos de Halloween.
Dessa forma, a força de segurança apenas lavrou um auto que enviou ao Ministério Público (MP).
Da Maia para a Póvoa de Varzim
Na passada sexta-feira, 30 de outubro, as primeiras notícias sobre a terceira edição do festival Masters Of The Sea, organizado pelo grupo supremacista branco Blood & Honour, dava conta que o evento ia realizar-se na Maia.
A Câmara Municipal da Maia apressou-se a dizer que "não licenciou nem autorizou" qualquer festival de música neonazi no concelho. A autarquia ameaçava mesmo estar atenta a este género de situações e utilizar "os meios ao seu dispor para impedir a ocorrência de quaisquer atividades não licenciadas".
O festival acabou assim por realiza-se na Associação da Matriz, na Póvoa de Varzim.
"Espaço solicitado por particular para realização de festa de aniversário"
Ao ter conhecimento do que se passava, ainda na noite de sexta-feira, na primeira noite do festival, a associação tentou impedir a realização do evento e informou a PSP e a autarquia do mesmo.
De acordo com o Jornal de Notícias a população da Póvoa de Varzim ficou receosa com a realização do Masters Of The Sea III e preocupada. Alguns comércios locais acabaram mesmo por encerrar mais cedo.
No sábado, 31 de outubro, nas redes sociais, a direção da Associação da Matriz emitiu um comunicado a contar a sua versão dos factos. Garante que o "espaço foi solicitado por um particular para a realização de uma festa de aniversário, com animação musical e bandas ao vivo" e "foi essa a finalidade comunicada à associação e que esteve na base da autorização concedida".
"A Direção procurou validar as informações disponibilizadas e agiu de boa-fé, não existindo, na altura, qualquer indicação que permitisse antecipar o enquadramento que posteriormente veio a ser conhecido", realçaram os responsáveis, lembrando que "a licença especial de ruído foi solicitada à Câmara Municipal com base nas informações transmitidas" e que "a autarquia desconhecia por completo a finalidade efetiva e o enquadramento da iniciativa".
Assim que teve conhecimento de informações que "contrariavam os pressupostos iniciais", a direção decidiu assim "cancelar a autorização de utilização do espaço e desenvolveu as diligências ao seu alcance para impedir a realização do evento".
Na mesma nota, a associação deu conta que não autorizava a realização do espaço para o segundo dia de festival e que ia agir judicialmente sobre o assunto.
Apesar disso - assim como de a autarquia ter revogado a licença de ruído da falsa festa de aniversário - o segundo dia do Master Of The Sea III acabou mesmo por realizar-se.
No domingo, dia 1 de novembro, a associação lamentou o facto dos neonazis não terem "acatado" o pedido para abandonarem o espaço.
O caso está agora a ser analisado pelo Departamento Jurídico, que irá "preparar as diligências legais adequadas". "Não procuramos indemnizações ou compensações financeiras. Procuramos justiça, o apuramento da verdade e evitar que outras instituições ou pessoas passem por situações semelhantes", assegurou a direção num novo comunicado.
A associação deixa ainda claro que "não se revê, em circunstância alguma, na alegada natureza e finalidade da iniciativa em causa". "Somos uma coletividade com 41 anos de existência formal, com atividade cultural de raízes centenárias, mais de 500 sócios e uma forte ligação à comunidade, através das nossas atividades culturais, recreativas e desportivas. Somos contra qualquer forma de radicalismo, extremismo ou intolerância, independentemente da sua origem ou orientação", frisaram os responsáveis.
Evento não foi alvo de qualquer ação das autoridades
Hoje, o jornal Expresso revela então que o evento não foi alvo de qualquer ação das autoridades. Contactada pela autarquia e associação, a PSP decidiu na mesma direcionar o efetivo disponível para os festejos de Halloween.
"Tratando-se de um período festivo (Halloween) e de elevado empenho operacional, a PSP direcionou o seu planeamento operacional para a sua missão fundamental de segurança e a ordem pública dos cidadãos, não registando qualquer acionamento neste âmbito relacionado com o referido evento, mas antes reclamações telefónicas para a Esquadra da Póvoa de Varzim, veiculando a indignação com o facto de estar a decorrer na localidade um evento conotado com a ideologia da extrema-direita", afirmou a força de segurança ao semanário, quando questionada sobre a situação.
Apesar disso, "elaborou um auto de notícia com toda a factualidade conhecida" que remeteu para o Ministério Público (MP).
Uma decisão, que explicou a PSP ao Expresso, "considerou as vicissitudes apresentadas acerca do processo de licenciamento e a priorização da garantia da segurança pública no local e suas imediações". Segundo a publicação, nenhum agente se dirigiu então ao local.
Um dia antes do evento, a PSP já tinha afirmado ao mesmo jornal que o festival estava a decorrer "em propriedade privada", com licenças válidas, e que não poderia intervir uma vez que "não houve queixas".
Centenas foram a festival de 2 dias. Bilhetes diários custavam 50 euros
O local evento, que este ano realizou-se então na Póvoa de Varzim, só foi revelado aos participantes horas antes do festival começar.
Este ano, o mesmo contou com cerca de 300 pessoas, de várias nacionalidades. Os bilhetes foram vendidos no valor de 50 euros por dia e todas as informações sobre o Master Of The Sea III foram divulgadas num grupo secreto, composto maioritariamente por homens.
O festival, que se realizou no dia 30 e 31 de outubro, contou com bandas como Skumshot, da Grécia, Mr Obled, da Polónia ou Legião Lusitana, de Portugal.
O evento é organizado pelo Blood & Honour Portugal, ramificação nacional de uma rede neonazi internacional fundada em 1987, no Reino Unido, e que tem sido alvo de medidas restritivas em vários países.